Ela disse “qualquer-coisa-Kate-Moss” e eu disse “corte!”

Estou numa daquelas fases da vida em que não tenho tempo nem paciência para cuidar muito de mim além do básico. Tirando a depilação, que é religiosa, as mãos andam ao deus-dará; os pés, felizmente, andam tapados e se por acaso tiver de tirar os sapatos fechados para experimentar umas sandálias vou corar de vergonha; maquilhagem só mesmo quando não aguento ver as olheiras até ao chão e a tonalidade esverdeada da pele de Inverno; e o cabelo… o cabelo anda metido num rabo de cavalo há vários meses, à espera de melhores dias. São fases e esta, como todas as outras, vai passar. Espero.

Em matéria de cabeleireiros (e não só!), sou uma mulher fiel. Se confio na pessoa que segura a tesoura, sigo-a para o resto da vida. Por isso, há mais de dez anos que sigo o “meu” Stephane, desde que o conheci no Salão Jacques Dessange, no Chiado. Tenho por ele esse sentimento de pertença. É meu, não quero mudar, é como se fosse parte da família. Mas este fim-de-semana dei uma facadinha na nossa relação de décadas. Convidaram-me a conhecer a Marie, que há meses abriu o salão privado Marie à Lisbonne e não há melhor forma de conhecer do que ir e dar o corpo às balas. Foi o que fiz… a medo.

A Marie é um personagem único. Francesa só de nascimento, porque entretanto andou pelo mundo todo a cortar cabelos a gente mais que famosa (das modelos Claudia Schiffer e Linda Evangelista, dizem as más-línguas e eu limito-me a espalhar o boato), apaixonou-se por Lisboa há dez anos e foi ficando. Recebeu-me na sua “casa” no Príncipe Real, junto à Praça das Flores – ela e Corie, a cadela velhota que Marie adoptou de um sem-abrigo e que tem direito a uma poltrona confortável para passar o dia a olhar, embevecida, a dona -, onde ainda cheira a novo e tudo é branco imaculado, à excepção da sala de estar com lareira, onde há mantas quentinhas e coloridas para nos taparmos enquanto Marie nos lava o cabelo.

Marie à Lisbonne

 

Sem papas na língua, em meia hora de conversa entre bolinhos e chocolates LaDurée, já me tratava por tu e tinha contado quase a vida toda. Excertos de uma vida nómada, passada com a casa às costas entre continentes, latitudes, fusos horários, amplitudes térmicas. Moscovo. Barcelona. Quebéc, Zurique, Santiago do Chile, Saint-Tropez, Paris e agora Lisboa, não necessariamente por esta ordem. Nada que a tenha assustado. Marie Sabatier é uma mulher de armas e parece adaptar-se na perfeição a qualquer lugar. Seja ao salão que gere à porta fechada e onde recebe sozinha, entre as 14h00 e as 21h30, todos os dias da semana excepto à quarta-feira, porque lhe apeteceu, os clientes que foi angariando ao longo dos anos; seja na conversa com a “rapaziada chunga” que habita nas imediações do cabeleireiro; seja em salões finos em Paris, como o Jacques Dessange, onde aprendeu o ofício ou nos lugares mais alternativos por onde passou, do Facto ao WIP. É impossível não gostar dela.

A Marie é uma 'one-woman-show' que atende na Rua Marcos Portugal, nº17 (mesmo ao lado da Praça das Flores). Para marcar, é só ligar para o 912 062 145 e combinar com ela.
A Marie é uma ‘one-woman-show’ que atende na Rua Marcos Portugal, nº17 (mesmo ao lado da Praça das Flores). Para marcar, é só ligar para o 912 062 145 e combinar com ela.

Tem um olhar ternurento, que condiz com o sotaque afrancesado com que vai contando as suas histórias e nos lê, só de olhar para nós. “E o cabelo, Rita?”. Soltei o rabo-de-cavalo e mostrei-lhe a dimensão da minha desgraça – tudo culpa minha, desorganizada que ando ao ponto de nem conseguir duas horas para passar no “meu” Stephane… – cabelo sem corte, sem graça, colado à cabeça, como se tivesse sido lambido por uma vaca. “Já sei! Vou-te fazer o escadeado da Kate Moss!”, propôs. “Corte!”, respondi sem hesitar, sentando-me na cadeira branca. Só uma boa história, um bom personagem, para me fazer trair o Steph. E agora passeio, alegremente, o meu cabelo à Kate Moss (eventualmente será a única coisa que terei em comum com ela, é de aproveitar).

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