O poder feminino da head couture

Podia chamar-se Gracinha Turbante, de tão familiarizada que está com este acessório de cabeça. Mas Gracinha Viterbo, interior designer, mãe de quatro filhos a residir em Singapura, é muito mais do que a head couture que começou a fazer para si e que aos poucos se está a tornar num negócio sério.

Já seguia o trabalho da Gracinha há anos. Primeiro o da sua mãe, Graça, senhora de extremo bom gosto e responsável pela decoração de inúmeros hotéis e projectos pelo país fora. Depois o dela, enquanto braço direito da mãe e em voos a solo que lhe correram bem e ajudaram a que merecesse o respeito dos seus pares. No ano passado conhecemo-nos finalmente, quando a convidei – e ao marido – para ser fotografada num editorial que fez capa na Fora de Série. Gracinha e Miguel formam um casal apaixonante de tão dinâmico. Sempre cheios de projectos, não tiveram medo de arriscar e, para tornar a empresa familiar fundada por Graça Viterbo em 1971 num negócio global, não hesitaram em mudar-se para o outro lado do mundo com os quatro filhos pequenos.

À distância, via Instagram, fui acompanhando as novidades da vida de mais dois personagens que passaram a fazer parte da família Fora de Série. Foi quando descobri que os turbantes da Gracinha – ela usava-os sempre, em todo o lado – estavam, também eles, a tornar-se globais. Quis saber mais sobre este hobby/negócio e partilho aqui convosco o resultado desta entrevista onde Gracinha conta que, de tanto usar turbantes já lhe perguntaram, na praia, se estava doente. Respondeu que não, que para ela os acessórios de cabeça são como um ponto final na mensagem que ela mesma é. “E uma frase ou um texto, sem pontuação, não tem força nem sentido”. Além disso, acrescentou, “a head couture dá jeito para dias de mau cabelo”. Dá sim senhora!

Gracinha, hoje em dia já é difícil dissociá-la dos adereços de cabeça. Como é que essa paixão nasceu?

Desde que tenho fotografias que me vejo com peças na cabeça! Ou porque me punham ou porque gostava assim, foi sempre. Bandanas/chapéus/lenços tipo Brigitte Bardot/you name it já pus na cabeça desde que nasci… Tenho duas avós e uma mãe donas dum estilo muito vincado chic, vintage e próprio… E não são só elas. Em fotografias de família há muitas outras mulheres de força que sempre tive à minha volta: tia-avó, tias, a minha irmã. Sempre me foi passada a importância da individualidade e de nunca deixar de ser eu própria. Os turbantes surgiram porque me identifiquei com eles e por ter esta paixão por head couture que já vem de família há várias gerações.

Ouvi falar numa avó coleccionadora de chapéus, é verdade?

Uma bisavó paterna. Uma colecção que rondava 400 chapéus e em que 100 eram turbantes. Nunca a conheci mas gostava muito de ter conhecido. Pelo que me contam era uma pessoa muito especial.

A Gracinha também colecciona turbantes e chapéus? Na verdade não me recordo de alguma vez a ter visto de “cabeça despida”… 

Ando muitas vezes de cabeça despida mas já ninguém me reconhece hahaha! E troco constantemente de corte de cabelo ou de penteado, mas com quatro filhos e dias intensos de trabalho, não tenho muito tempo para me arranjar. Gosto de camadas e de detalhes, de manhã quando me visto é quase como se estivesse a fazer um mood board. Sou impulsiva e prática. Sou Gémeos com ascendente em Gémeos: não me canso de mudar e de explorar estilos. Talvez por isso o meu estilo próprio seja maioritariamente ecléctico.

Orgulha-se de vir de uma família de mulheres fortes, independentes e cheias de estilo. O seu é declaradamente vintage.
Orgulha-se de vir de uma família de mulheres fortes, independentes e cheias de estilo. O seu é declaradamente vintage.

Quantos tem?

Neste momento uns 80. Há quem coleccione selos… eu colecciono head couture. Há já muitos anos, mas as pessoas só começaram a dar-se conta há relativamente pouco tempo.

Tem algum special room para eles em casa? 

Como vivo a viajar e tenho duas casas onde estou metade do ano em cada uma, optei por desenhar uns envelopes tipo os dos sapatos (mas mais personalizados) onde os ponho e organizo por gavetas. Mas pedi à talentosa Anna Westerlund que fizesse exclusivamente para mim uma série de manequins com personalidades diferentes white on white para expôr os que vendo e tenho-os em Singapura num canto do escritório. Para os de pena grande, tenho caixas de acrílico para os ver e os proteger. Confesso que já desenhei na cabeça essa sala, uma biblioteca de head couture cheia destes manequins… que vou passar a coleccionar também. 🙂

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São todos diferentes? Têm moods? Cores específicas?

Todos diferentes, como as mulheres que os usam. Não quero que duas mulheres entrem na mesma sala com o mesmo turbante. Tenho quatro grupos que pertencem a quatro momentos: Day-to-day; Resort; Cocktail; Glam. E só os Resort se repetem, porque são de lycra, mais relaxados. Os outros são todos únicos. Posso usar os mesmos tecidos, mas nunca terão o mesmo modelo, acessórios ou penas conjugados. No meu trabalho como interior designer assumo personalidades e moods diferentes consoante o cliente, a localização do projecto e o briefing e acredito que uma pessoa possa assumir vários estilos no que veste também. Por isso é-me fácil e gosto de ter o exercice de style de criar para vários moods, para vários momentos também na head couture. Uso sedas, veludos, brocados, damascos, ikats, linhos, prints vintage, transformo peças de roupa vintage que compro em viagens, colecciono acessórios e botões vintage… O meu trabalho leva-me a lugares onde cruzo pesquisas e, por vezes, vou para encontrar móveis e acabo a comprar acessórios para a head couture. São áreas que se complementam.

Inspira-se em alguma época?

Comecei por me inspirar muito entre os anos 20 e os 40, mas agora estou a explorar mais estilos, a pensar fora de caixa com couros, bordados, pedras e ágatas. Até já fiz peças personalizadas com jóias vintage para uma noiva.

Gostava de ter vivido numa outra era? Qual?

É preciso perguntar? Anos 20, 30, 40 e 50 pick and choose… Se bem que desde o século XIX aos anos 70 sempre foi interessante vibrante a mudança de estilos. Quando vivia em Londres tirei um curso de verão de História do Mobiliário e Arte no Victoria and Albert Museum e todos os dias passava horas na ala de História da Moda por causa do design de chapéus e peças de cabeça. Ficava hipnotizada a caminho das aulas e às vezes chegava atrasada!

Há algum especial, com uma história para contar?

O meu preferido é o que usei no casamento da minha irmã, por ter um dos meus acessórios vintage preferido: um tigre. Lembro-me que, quando o pus, a pena era tão grande que eu ia sentada à frente no carro e a minha filha Alice ia no banco de trás e cada vez que a conseguia agarrar puxava…

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Usa todos os dias ou só em ocasiões especiais?

Uso mais do que não uso. E uso em todo o tipo de ocasiões: posso estar na praia, de jeans e t-shirt, ou numa ocasião especial. Não gosto de obedecer a tendências, gosto de as conhecer e depois de as usar e personalizar à minha maneira. Neste caso criei a minha própria tendência muito antes de virar a moda que é hoje.

Li algures que associa a ‘head couture’ ao poder feminino. Porquê?

Costumo dizer “we are ALL super-heroes, might as well wear the capes around our heads”. Venho de uma família de mulheres fortes, independentes, inteligentes e com uma boa auto-estima. Mas o meu lado artístico, se me vir numa sala cheia de gente, é sobretudo introvertido. O meu universo está na matriz da minha cabeça e é interminável, é um circo poético cheio de cores, mas sou introvertida por fora e só quem me conhece muito bem – ou escolhe conhecer-me melhor – é que sabe que sou assim. Tenho os dois lados do espelho em mim: lá está, Gémeos… 🙂

Mesmo sendo introvertida por natureza,  o meu estilo sempre foi uma forma de comunicar com o mundo. Numa fase em que as meninas andavam todas de Levis, camisas e bandanas, eu cortei cabelo à rapaz e andava de mini-kilt, gravata e Dock Martens. O Liceu Francês deixava-nos ser nós próprios e, mais tarde, no primeiro ano da  universidade no Central St. Martins, em Londres, percebi que também havia ali um culto da individualidade. Acho que, para mim, o turbante ou o acessório na cabeça é como a pontuação final da mensagem que eu sou, nas vidas que cruzo. Uma frase ou um texto, sem pontuação, não tem força nem sentido. De turbante sentimo-nos especiais, diferentes do resto, únicas. E simplesmente porque, num mundo onde a vida passa a correr, parámos e tratámos de nós por um minuto, olhámo-nos ao espelho e escolhemos achar que somos fortes e bonitas. Numa sociedade que nos injecta parâmetros de beleza rígidos, temos de sair da caixa e perceber que a beleza está na individualidade e personalidade, e não só na estética. Nunca conheci uma mulher que não fosse forte, que não fosse bonita. E digo isto mesmo a sério. Acho que um gesto tão simples que nos obriga a olhar ao espelho, a dizermos “olá, estou aqui” – e acredito que muitas mulheres, muitas mães, muitas profissionais não têm tempo de o fazer – dá força. E dá jeito para dias de mau cabelo, também. Hahaha!

Como se sente quando usa um?

Sinto me eu com um detalhe especial que me faz ser eu mais qualquer coisa. 🙂

Com Suzy Menkes, a mais famosa jornalista e crítica de moda inglesa, especialista em luxo que já passou pela Vogue e pelo International Herald Tribune.
Com Suzy Menkes, a mais famosa jornalista e crítica de moda inglesa, especialista em luxo que já passou pela Vogue e pelo International Herald Tribune.

Entretanto o hobby tornou-se sério e criou uma linha de Head Couture. Faz só para si ou aceita encomendas?

Começou só para mim. Lido com tecidos e acessórios todos os dias e gosto de personalizar tudo, por isso foi rápida a viagem entre o coleccionar e o começar a fazer. Depois, uma ou amiga ou cliente de trabalho, começaram a pedir, a seguir veio uma primeira grande encomenda numa conferência do “New York Times” onde conheci a Suzy Menkes. No final ela veio ter comigo e disse-me: “sabe, ali do palco, com as luzes na minha cara, eu não conseguia ver ninguém na plateia durante estes dias… mas conseguia ver os seus turbantes”. Nessa conferência, uma senhora nigeriana encomendou-me 100. Depois disso organizei-me e o processo tem sido orgânico. São os turbantes que chegam às pessoas mais do que as pessoas chegam aos turbantes. Olho para eles como um acessório de valor, no estatuto dos sapatos ou dos óculos escuros, collectables.  São únicos, há muitos no mercado hoje em dia, mas não pretendo competir com outras marcas, quero ter o meu próprio caminho e que as minhas clientes se sintam especiais no dia em que conseguem comprar um ou somar outro à colecção. Para o ano vou ter um capítulo Inverno para os clientes que tenho em países frios como Rússia ou Norte da Europa. E vou começar a fazer pop up shops aqui e ali e em lugares especificamente escolhidos. Porque acho que  faz parte desta viagem da Gracinha Viterbo Head Couture. O primeiro é esta semana em Lisboa. Depois virá o site, eventualmente ainda em 2015.

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Vende online? Como divulga?

Não tenho site, não tenho Facebook. Tenho Instagram @gracinhaviterbo_head_couture onde mostro sneek peeks e um e-mail onde posso comunicar com clientes ou pessoas interessadas. Faço capítulos de turbantes, ou seja, grupos de turbantes ou desenho bespoke para ocasiões especiais.

Como tem tempo para se dedicar a esse extra job com uma vida tão agitada e quatro filhos pequenos?

Durmo pouco e não quero nunca dizer me a mim própria que podia ter vivido mais! A questão não é como, é porque não?

Gracinha com a fotógrafa Annie Leibovitz.
Gracinha com a fotógrafa Annie Leibovitz.

Com quem tiraria uma selfie de turbante?

Já tirei tantas, com as minhas avós, com a minha mãe, com a minha filha Alice, que também já tem os dela… Com a Suzy Menkes e com a Annie Leibovitz num jantar em Singapura. Se bem que não é tanto pelas pessoas com quem estamos, mas para as memórias que marcamos com elas.

Indique uma mulher que ache que não pode viver mais sem um turbante seu.

A minha filha Alice. Os turbantes são para usar dos 3 para além dos cem anos… Não é a idade é a atitude. 🙂

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A filha, Alice, é já uma aficionada das criações de head couture de Gracinha.

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