É obra!

Foram mais de quatro meses quase sem marido. Ele até andava por aqui, mas sempre fechado no escritório. Quando não estava a teclar furiosamente, estava ao telefone a marcar entrevistas. Ou na Assembleia e falar com este e aquele. Ou a caminho de Évora. Durante semanas a fio, só se ouviu falar de Sócrates nesta casa. Não admira que o nosso filho, com cinco anos, conheça melhor o ex-primeiro ministro que está preso do que o abecedário. E que, na maior das inocências, brinque alegremente “aos Sócrates” ou “aos reclusos 44” com a sua prisão da Playmobil… Filho de jornalistas é quase jornalista. É inevitável.

Mas o martírio acabou ontem, com a apresentação da obra. O livro “Cercado – Os Dias Fatais de José Sócrates”, assinado por Fernando Esteves, o senhor que vive cá em casa, chegou ontem às livrarias, editado pela Matéria-Prima. Agora é torcer para que esgote – apesar de Sócrates estar preso e provavelmente não estar interessado em investir na totalidade da edição… -, seja um grande sucesso e eu possa ter, finalmente, o meu marido de volta. Assim ele não se lembre de escrever um “Cercado II” com a continuação da novela.

É o livro que me tirou o marido durante mais de quatro meses.
É o livro que me tirou o marido durante mais de quatro meses.

Fora de brincadeiras, vale muito a pena ler. A escrita tem um ritmo alucinante, a narrativa (já pareço o outro) é quase cinematográfica, palpável. É como se estivéssemos a ver o filme todo à nossa frente. A história é conhecida de todos: pela primeira vez na História, um ex-primeiro ministro é preso preventivamente por suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais e outras coisitas mais. Já toda a gente leu alguma coisa sobre os escândalos que envolvem José Sócrates, desde a questão da licenciatura na Universidade Independente, passando pelo famoso caso Freeport, acabando na prisão, em Novembro passado, no Aeroporto de Lisboa. O que ainda ninguém tinha feito foi agarrar em todos estes casos, juntar-lhes depoimentos deliciosos de bastidores, e compilá-los num livro de leitura frenética. O meu marido fê-lo e muito bem, na minha opinião.

Terminado o pesadelo, agora já não terei de explicar - envergonhada - às pessoas, que o miúdo gosta de "brincar aos Sócrates" porque o pai está a escrever um livro sobre o personagem...
Terminado o pesadelo, agora já não terei de explicar – envergonhada – às pessoas, que o miúdo gosta de “brincar aos Sócrates” porque o pai está a escrever um livro sobre o personagem…

 

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