Na antecâmara da alta-costura Chanel

Ainda não foi desta que fui conhecer o estúdio de Karl Lagerfeld na Chanel. Mas tenho esperança de que esse seja o próximo passo. Durante 24 horas, mergulhei no universo rico, raro e multifacetado de três dos onze métiers d’art da Chanel. É ali que nascem as camélias, as plumas, os botões, os bordados que fazem das colecções de alta costura desta casa o patamar mais elevado do luxo. É ali que nascem os sonhos.

Apanhei o último voo do dia para Paris. Aterrei em Orly já passava das 23h00. À minha espera, à saída, tinha o motorista, o Carlos, que me acompanharia nas (loucas) 24 horas seguintes. Era luso-descendente, o que facilitava a conversa. E fisicamente fazia lembrar o Mathew McConnaughey, simpático, educado, sorriso inacreditavelmente branco. Mas isso era só um detalhe. Há vantagens em aterrar na capital francesa já nas últimas horas do dia: não há trânsito. E por isso nem meia hora passou até que o Carlos me deixasse no hotel onde fiquei – apenas por umas horas, num quarto que só usei para dormir e tomar um duche pela manhã – na Rue Cambon, nas traseiras da Place Vendôme e uma rua ligada à Chanel desde os primeiros anos.

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Com a fama a crescer à velocidade da propagação da peste, em 1918 já Coco Chanel estava a comprar todo o edifício do número 31 da mesma rua. Foi neste espaço que nasceu o conceito moderno de loja Chanel. Dos chapéus aos acessórios, das jóias aos produtos de beleza. A Rue Cambon foi declarada território de Coco Chanel.

Foi ali, no número 21, que Gabrielle Chanel abriu, em 1910, a sua loja de chapéus. Com a fama a crescer à velocidade da propagação da peste, em 1918 já Coco (como esta conhecida Gabrielle) estava a comprar todo o edifício do número 31 da mesma rua. Foi neste espaço que nasceu o conceito moderno de loja Chanel. Dos chapéus aos acessórios, das jóias aos produtos de beleza, peças para usar e abusar em conjunto com o perfume Nº5, uma criação recente – e revolucionária – de Coco. A Rue Cambon – a um tirinho de distância do Faubourg de Saint Honoré (já na época e ainda hoje a zona mais fashionable da cidade) – foi declarada território de Coco Chanel. Em 1927 a Chanel já ocupava cinco edifícios na rua. E o número 31 foi escolhido para quartel-general da maison que teimava em fazer parte da vida dos parisienses; com a boutique a ocupar o piso térreo, o andar de cima servia para receber as clientes para as provas de alta costura e para apresentar as colecções. Subindo a escada em caracol, chegava-se ao ainda hoje preservado apartamento de mademoiselle Coco, o lugar a que, apesar de morar numa suite do Ritz, ela chamava de casa – e que também já tive o prazer de visitar. Era ali que guardava os seus tesouros, as peças que trazia de viagens, as fontes de inspiração. E no terceiro piso ficava o estúdio, o atelier onde ainda hoje Karl Lagerfeld, o director criativo da marca, trabalha nas colecções. Também ali, naquele sótão luminoso, ficavam as oficinas onde toda a matéria-prima necessária às colecções da casa era produzida: joalharia, chapéus, acessórios, botões, malhas. 

A caminho dos ‘métiers d’art’

Umas portas acima deste edifício, ao raiar da manhã, já Carlos esperava, para me conduzir à zona norte de Paris, onde hoje se instalam os principais Métiers D’Art da Chanel. Isto porque a companhia cresceu – e muito – e cedo todas as pessoas envolvidas na produção das colecções assinadas por Chanel não caberiam no atelier do nº31 da Rue Cambon. Os artesãos que formavam os Metiérs D’Art – que foram ganhando uma importância crescente – mudaram-se para um palacete antigo, no 1º Arrondissement, de onde saíram há perto de uma década devido ao mau estado de conservação do prédio. Depois da passagem por umas instalações provisórias nos arrabaldes da capital, mudaram-se definitivamente em 2012 para Pantin, a seis quilómetros de distância do centro, para um edifício criado de raiz para os receber. Pode não ter o mesmo cachet que o centro de Paris, mas ali espaço e luz é coisa que não falta. E alegria no trabalho também não.

São 11 os principais Métiers D’Art (ou ofícios de arte, como lhes queiramos chamar) usados pela Chanel na construção das suas intrincadas colecções de alta costura. No início, eram casas, empresas independentes da marca, fornecedoras apenas. Mas, à excepção de duas ou três que foram adquiridas entre os anos 80 e 90, desde 2002 que a Chanel se tem dedicado a comprar estas casas centenárias que encerram em si um know-how e uma tradição que têm de ser preservados a todo o custo. Para a Chanel, se por um lado está a garantir a continuidade da qualidade das suas colecções, por outro está a salvar estas empresas – muitas delas rudimentares, com estruturas pequenas e familiares – da ruína e a preservar postos de trabalho.

Detalhe importante: todas as oficinas que a Chanel comprou mantêm-se independentes. Ou seja, pertencem à Chanel mas não em regime de exclusividade. Na verdade têm a liberdade de trabalhar para qualquer casa de alta costura, mesmo que concorrente directa da Chanel. E fazem-no, sem qualquer prejuízo para ambas as partes. Chama-se a isso profissionalismo.

Os Métiers d’Art fazem parte da Paraffection, a subsidiária da Chanel criada em 1997 com o intuito de preservar e promover a tradição, o know-how e os conhecimentos de moda dos artesãos de cada um dos ateliers altamente especializados, assegurando assim um futuro para a alta costura. Nenhuma outra casa teria tanto interesse nisso, uma vez que a Chanel é uma das muito poucas casas de moda do mundo que mantém uma linha de alta costura.

Imagine-se uma casa que se propõe vender sonhos. Esses sonhos são feitos de tudo o que há de melhor em matéria de botões, acessórios decorativos, penas, plumas, sapatos, bijutaria, joalharia, malhas, caxemira, sedas, plissados, rendas e bordados. A matéria-prima de que são feitos os sonhos é rara e escassa, feita por um grupo restrito de artesãos que aprendem o ofício ainda crianças e passam os seus conhecimentos, de geração em geração, à velocidade que o tempo permite. Uma casa de alta costura com a dimensão da Chanel não se pode dar ao luxo de ficar refém da matéria-prima, ou de ter de baixar os parâmetros de qualidade para cumprir as encomendas. O passo inteligente seria juntar, sob o mesmo tecto, todas as oficinas artísticas de que necessita. Foi isso que fez. Do universo Métiers D’Art da Chanel, fazem parte a Desrues (botões e bijuteria), a Causse (luvaria), a Lognon (plissados), a Barrie Knitwear (malhas em caxemira), a Montex (bordados e galões), a Guillet (corpetes e flores), a Goossens (ourives), a Massaro (sapatos e botas), a Lemarié (plumas e flores), Lesage (bordados) e Maison Michel (chapéus). Foram estas três últimas que tive a oportunidade de visitar e de ficar a conhecer o trabalho minucioso que fazem.

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Dálias, peónias, túlipas, anémonas, papoilas, orquídeas e rosas, em tule, cetim, cabedal, organza ou veludo passaram a fazer parte do jardim da Lemarié. Mas uma flor, e apenas uma, reinou sobre todas as outras: a camélia. O ícone globalmente reconhecido da Chanel ganhou vida nos anos 60, precisamente na Lemarié.

Lemarié, a casa das camélias

Se se tivesse de apontar um culpado pela existência da Maison Lemarié, plumassier francesa fundada em 1880, essa pessoa seria a rainha Maria Antonieta. “Foi ela que se lembrou de decretar as penas e as plumas exóticas como parte integrante do código de indumentária da alta sociedade francesa do século XVIII”, conta-me Nadine Dufat, a directora geral da casa, que me recebeu ainda não eram 10h00. Por causa dela – de Maria Antonieta, naturalmente – as penas passaram a representar o último grito da fantasia e a frivolidade feminina. Na época, Paris chegou a ter mais de 300 ateliers especializados na arte plumassier. Hoje em dia, contam-se pelos dedos de uma mão – e a Lemarié está no topo da lista.

Várias mulheres sentam-se ali a cortar penas já lavadas e tingidas milimetricamente para depois cada pedacinho ser meticulosamente montado, à pinça, de acordo com um croqui que tinham em cima da mesa, assinado por Karl Lagerfeld, o próprio. O efeito é sumptuoso.
Várias mulheres sentam-se ali a cortar penas já lavadas e tingidas milimetricamente para depois cada pedacinho ser meticulosamente montado, à pinça, de acordo com um croqui que tinham em cima da mesa, assinado por Karl Lagerfeld, o próprio. O efeito é sumptuoso.

Fundada por Palmyre Coyette no final do século XIX, rapidamente a casa tornou-se numa das mais reputadas da capital. “A Natureza é generosa. E penas de aves tão belas e preciosas como faisões, aves-do-paraíso (agora quase extintas e por isso proibidas), cisnes, garças, pavões, avestruzes, abutres ou galinholas – todas certificadas – eram ali limpas, lavadas, tingidas, penteadas, encaracoladas e aparadas de todas as formas imagináveis antes de serem aplicadas em tecidos”, contava-me Nadine, enquanto avançava para uma sala onde uma dezena de mulheres – ao longo do dia vou concluir que este é um tipo de trabalho desenvolvido quase a 100% por mulheres – se dedicava a isso. A cortar penas já lavadas e tingidas milimetricamente para depois cada pedacinho ser meticulosamente montado, à pinça, de acordo com um croqui que tinham em cima da mesa, assinado por Karl Lagerfeld, o próprio. Conta-me Nadine que faz parte da colecção que chegou agora às lojas, intitulada Paris-Salzburgo. O efeito é sumptuoso. Mas não tanto como, por exemplo, o vestido em tule cor-de-rosa com plumas vaporosas que a actriz Nicole Kidman vestiu no anúncio que protagonizou para o perfume Chanel nº5. Segundo Nadine, foram precisas mais de “seis semanas para juntar os mais de 50 metros de tule aos pedaços milimétricos de mais de 200 plumas de avestruz”. Um trabalho que requer paciência de chinês, mas que enche de orgulho as pessoas que o fazem. Nota-se no seu olhar. E se dúvidas houvesse sobre o porquê do preço elevado de cada peça de alta costura, a resposta estaria aqui, onde é possível ter dez pessoas a trabalhar sobre um único vesdido ao longo de dez dias. Feitas as contas, pode chegar às 2 mil horas de trabalho, sobre 20 tipos diferentes de tecido. Aconteceu com um vestido de noiva em Janeiro deste ano.

Quando, em 1946, Andre Lemarie, o neto da fundadora, se juntou ao negócio da família, a Lemarié expandiu a sua área de negócio e passou a fazer também flores decorativas a partir de todo o tipo de material. Dálias, peónias, túlipas, anémonas, papoilas, orquídeas e rosas, em tule, cetim, cabedal, organza ou veludo passaram a fazer parte do jardim da Lemarié. Mas uma flor, e apenas uma, reinou sobre todas as outras: a camélia. O ícone globalmente reconhecido da Chanel ganhou vida nos anos 60, precisamente na Lemarié, conta Nadine, um nadinha orgulhosa, enquanto me dá passagem para a sala das flores da ´maison’. Minutos antes, tínhamos passado pelas oficinas de corte – o único sítio onde vi homens a trabalhar –, onde são feitas as ferramentas, os moldes, à antiga, e o corte dos tecidos, principalmente dos mais resistentes, como o cabedal, é feito com a ajuda de ferramentas e tornos.

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As formas de metal cortam as 16 pétalas usadas em cada camélia – seja ela feita em que tipo de material for, já que Karl Lagerfeld não se cansa de reinventar a camélia, em tweed, vinil, plástico ou até papel –, que depois são arredondadas com a ajuda de ferros de encaracolar com uma bola na ponta. A bola, em metal, é aquecida com uma lamparina e depois, sobre um pequeno colchão de espuma, cada pétala é trabalhada a quente para adquirir a forma encaracolada que as caracteriza. Cada flor, demora cerca de uma hora a fazer.

Deste atelier recheado de mulheres sorridentes, cuja idade média ronda os 30 anos de idade – muitas delas treinadas na casa desde os 15 anos –, saem, diariamente, mais de 40 mil flores e não são só encomendas para as seis colecções anuais da Chanel. Entre motivos vegetais e de penas, desde cedo que a Lemarié é fornecedora de confiança de muitas das principais casas de alta costura do mundo: Dior, Balenciaga, Nina Ricci, Givenchy, Hermès, Yves Saint Laurent, Roger Vivier, Alexander McQueen, Valentino ou Marc Jacobs. Sem prejuízo para a Chanel, sua proprietária. Afinal, são a única casa no mundo a fazer este tipo de manipulação têxtil com esta mestria. “Não gostamos de fazer coisas simples. Gostamos de desafios, dêem-nos coisas complicadas, que nós fazemos!”, conclui Nadine.

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Hubert Barrère, director criativo da Lesage, que me guiou pelo atelier, desde o arquivo – onde estão guardados, em caixas identificadas, mais de 60 mil bordados históricos – até ao armazém das contas, das missangas e dos vidrilhos, disse-me os bordados, “para serem bem feitos, têm de ser tão perfeitos na frente como no verso”. Ao virar um exemplar, constato que sim, a perfeição existe. “Não há limites para o bordado”, continua, acrescentando que “tudo se pode bordar”.

Lesage, a biblioteca de bordados

É tempo de nos despedirmos de Nadine Dufat e de descermos novamente ao piso térreo. É lá que fica a Lesage, casa de bordados fundada em 1858 com o nome de Michonet – que era fornecedora de grandes nomes da costura da época, como Charles Frederick Worth, Jean Paquin e Madeleine Vionnet – e que foi comprada, nos anos 20, pelos irmãos Albert e Marie-Louise Lesage. Marie-Louise era assistente e bordadeira de Madame Vionnet e há muito que o seu trabalho se destacava, não só pela perfeição, como pela inovação técnica. Hubert Barrère, director criativo da Lesage, que me guiou pelo atelier, desde o arquivo – onde estão guardados, em caixas identificadas, mais de 60 mil bordados históricos – até ao armazém das contas, das missangas e dos vidrilhos, disse-me os bordados, “para serem bem feitos, têm de ser tão perfeitos na frente como no verso”. Ao virar um exemplar, constato que sim, a perfeição existe. “Não há limites para o bordado”, continua, acrescentando que “tudo se pode bordar”.

Lesage - Embroiderer applying micro pearls

A Lesage ficou famosa por ter uma arte muito própria de misturar os tons das contas. Por apostar, nos seus bordados, em motivos avant-garde com conchas, inspiração circense e signos do zodíaco. E por fornecer bordados a tantas outras casas de moda, como Elsa Schiaparelli, Balmain, Balenciaga e Fath, tal como Christian Dior, Hubert de Givenchy e o próprio Yves Saint Laurent. Como detentora da maior colecção de bordados em arquivo, a procura pelo talento da Lesage cresce a um ritmo avassalador. Tanto que, todos os anos, a empresa acrescenta ao seu arquivo cerca de cem novos bordados por ano, gasta mais de 30 quilos de missangas e mais de cem milhões de lantejoulas Para salvaguardar – e prolongar no tempo – todo o património histórico de know-how da casa, a Lesage abriu, já em 1992, a sua própria escola de treino. São 60 as pessoas a trabalhar no atelier, de janelas rasgadas de alto a baixo, por onde entra uma imensidão de luz natural. Quarenta delas são bordadeiras, e trabalham, sobre teares feitos à medida de cada criação, a uma rapidez alucinante, sem sequer verem como está a ficar o bordado. “Elas não vêem, mas sentem”, explica Hubert Barrère, já sentado no seu gabinete, um canto inspirador de onde sobressaem, sobre a mesa, um vaso de orquídeas cor-de-rosa, velas aromáticas, amostras de bordados, chávenas de chá, perfumes Chanel, imagens de desfiles, cores intermináveis de lápis de cera. É também deste ambiente que saem as peças em tweed, outra matéria-prima absolutamente Chanel na sua essência.

Maison Michel

Chapéus há muitos…

…mas nada como estes. Nascida em 1936, a Maison Michel tem, na sua história, uma rica tradição na arte da chapelaria (millinery, em inglês). Tanto que não há desafio que a derrote. Especialmente desde 1968, quando chegaram àquela casa dois enormes talentos chapeleiros: Pierre e Claudine Debard. Com eles, e à semelhança das outras duas casas de Métiers d’Art que conhecemos nesse dia, chegaram as colaborações com as mais prestigiadas casas de moda.

A Michel é o atelier que tem mais aspecto de oficina. Tive a sorte de poder acompanhar a realização de um chapéu – também ele para a colecção Paris-Salzburgo – do início ao fim. A jovem Elodie vai-me guiando os passos. Primeiro explicando que o cone tosco de feltro que temos à frente vai ganhar outra forma. Como? Com a ajuda do vapor de água, de goma e dos moldes de madeira que a casa junta, em mais de 3000 exemplares, à entrada do atelier.

Maison Michel

Borrifado com água e goma arábica, é colocado dentro de uma espécie de panela de pressão a vapor. Em três minutos, o chapéu (ou a base dele) está maleável como um cordeirinho. Elodie estica e dá-lhe forma ainda antes de o encaixar na forma escolhida, a de um modelo “Henrietta”. O feltro ajusta-se na perfeição ao corpo do molde, com a ajuda de uma corda, alguns pregos e pequenos troncos de bambu. Terminada a moldagem, o chapéu vai ao forno – para enrijecer a goma e eliminar os restos de humidade -, ficando pronto para ser encaminhado para as modistas, que além de o finalizarem em matéria de costuras, ainda tratam dos enfeites. Que podem ser plumas, flores ou qualquer outro “ingrediente” saído destes Métiers d’Art. Contando que seja, sobretudo, fora de série.

[Reportagem publicada na edição nº128 da Fora de Série de 12 de Junho de 2015, a ler aqui]

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