O test-drive mais burguês (e acidentado) de sempre

A redacção da Fora de Série tinha uma particularidade. Era constituída só por mulheres. Era. Agora temos um homem a equilibrar as coisas. Há dois anos calhou-me a mim a “difícil” tarefa de levar para casa o mais recente Porsche 911, o Carrera 4S,  lançado em Portugal em Setembro de 2013. Em matéria de desportivos, o Porsche é o meu carro de sonho. Possante, magnífico, com aquele seu característico ronronar de motor, que faz desviar para a faixa da direita todos os carros que se lhe atravessam na frente e desencoraja picanços (mesmo estando uma mulher – e loira – ao volante).

Adoro o detalhe da chave à esquerda. As curvas da carroçaria. O luxo despojado dos interiores. A posição de condução, rente ao chão, sem ser desconfortável. Desportivo de corpo e alma. Características que contam mesmo quando não se percebe grande coisa de carros, quando se enfrenta o asfalto todos os dias a bordo de um Smart de mudanças automáticas, vítima constante de bullying automobilístico. Agora que tenho o meu fiel-automóvel-de-baixa-cilindrada-mas-elevado-potencial-de-estacionamento no estaleiro à espera de peças, lembrei-me do 911. Tenho saudades dele. Dos dois, na verdade.

Bom, apesar disso tudo – ou talvez por isso mesmo – nessa altura, no Verão de 2013, o 4S passou comigo o fim-de-semana menos desportivo da sua vida. À chegada, viu o seu curto mas muito ergonómico banco de trás invadido por uma cadeira de bebé de um tom de encarnado histérico. Uma agressão àqueles interiores em pele, a cheirar a novo, num maravilhoso tom de caramelo. Rapidamente, chão e toda a região circundante se encheram de migalhas de bolachas, restos de chupa-chupas e pedaços de brinquedos. À noite, os 450 cavalos de potência foram orgulhosamente rentabilizados numa visita ao supermercado. Surpreendentemente, a bagageira, na frente, acomodou com facilidade os seis sacos de comida que trouxe para casa.

Os interiores, em pele cor de caramelho, não foram feitos certamente para acomodar restos de bolachas, chupa-chupas e chupetas perdidas. Mas o 911 aguentou-se bem nessa matéria.
Os interiores, em pele cor de caramelho, não foram feitos certamente para acomodar restos de bolachas, chupa-chupas e chupetas perdidas. Mas o 911 aguentou-se bem nessa matéria.

No dia seguinte, esperava-o um novo desafio: transportar um enorme rolo de tecido comprado numa famosa loja da especialidade de Campo de Ourique. O habitáculo mostrou-se mais do que à altura e, por isso, animada com as capacidades de transporte demonstradas pelo aniversariante (esqueci-me de referir que o 911 fazia, nesse ano, 50 anos de vida…), segui para uma outra grande superfície para comprar uma estante que há muito ambicionava e não cabia no meu carro, também de tecnologia alemã, mas com cilindrada e dimensões bastante inferiores…

A tarde foi passada na estrada, sobretudo para aproveitar as vantagens do tecto de abrir, tentando conseguir um bronzeado digno de nota. Deixo o relato das proezas do automóvel no asfalto para os homens da casa. É que eu, na verdade, consegui fazer o que parecia impossível: tratar um desportivo que tem fama de castigar quem não sabe conduzir como um utilitário citadino e ainda amolgar a chapa do carro mais bonito – e potente – que já me passou pelas mãos. Ser burguês é isto, senhores… e é triste.

Podia mentir e inventar aqui que sobrevivi a um despiste a 280 km/h. Que protagonizei peões e capotamentos dignos de um filme de Tarantino e saí ilesa. Mas não. Foi erro de cálculo puro e simples a 10 km/h. Uma parede que estava onde não devia. Uma porta linda deitada abaixo. Um arrependimento para a vida. Uma dor audível, que fica. Nem os sensores de estacionamento me valeram. Foi a primeira vez que bati na minha vida de condutora, e tinha de ser em grande, com 180 mil euros de beleza intocada, até àquele dia. Duvido que a Porsche volte a passar-me uma belezura destas para as mãos. Mas lá que eu gostava…

Lindo em todos os ângulos. Foi a porta direita a vítima. Ainda hoje me dói, e já foi há dois anos.
Lindo em todos os ângulos. Foi a porta direita a vítima. Ainda hoje me dói, e já foi há dois anos.

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