Todas as massagens deviam ser assim

Caras esmurradas. Olhos negros. Bocas inchadas. Dentes partidos. Era assim, à pancada, que Tyler Durden, o alter-ego de Edward Norton no filme “Clube de Combate”, se livrava das frustrações e stresses acumulados enquanto criava uma revolução para se vingar de uma sociedade consumista e obsessiva com o estilo de vida. Tyler Durden não é o único cidadão do mundo com sintomas da vida moderna: as insónias, o vazio, a ansiedade, o humor instável, dores de alma que com o passar do tempo se transformam em sofrimento físico. Sintomas responsáveis pela depressão do António, corrector de bolsa. Pelo cansaço crónico da Sofia, mãe de cinco. Junte-se-lhes anos a fio de problemas, noites mal dormidas, férias insuficientes, má alimentação, ausência de exercício físico e… voilá, tudo se complica. Se os órgãos falassem, certamente ouviríamos em estéreo as queixas das minhas cervicais: “sou as dores de costas da Rita, a precisar de consolo nos Paralíticos Unidos ou de aviar já uma multidão à força de upper-cuts e cabeçadas”. Não vamos tão longe. Porque sabemos hoje que Tyler Durden só fundou o Clube de Combate porque na altura não existiam spas como o do Ritz, espaços de relaxamento onde tudo, desde o ambiente, às velas, passando pelas pétalas de flores, os chás e a simpatia das pessoas, são uma ode ao bem-estar. Voltei, uma vez mais, a esta minha segunda casa, onde confirmei – se dúvidas restassem – que é possível fazer dissipar os gritos dos órgãos queixosos e transformá-los em sensações de prazer.

[sou os cinco sentidos que gritam]

Se duas mãos fazem maravilhas sobre as minhas terminações nervosas, quatro mãos têm potencial para me levar ao céu. Foi o que aconteceu com o tratamento “Sinfonia”, cuja particularidade é ser feito por dois terapeutas em simultâneo, uma novidade na carta de massagens do Ritz Spa.

A correria do dia-a-dia turva-nos a capacidade de gozar em pleno dos sentidos. Mas neste spa sente-se o despertar de cada um deles, à vez: primeiro a visão (aqui, até o balneário é visualmente estimulante); depois o olfacto (com a ajuda dos aromas dos óleos essenciais); a audição (com a música de fundo a evocar estados de espírito elevados); o tacto (multiplicado por dois neste tratamento); e até o paladar (saciado com um chá de ervas acompanhado de frutos secos).

Sinfonia em números: - 4 mãos; - 90 minutos; - 260 euros.
Sinfonia, o novo tratamento de assinatura do Ritz Spa, em números: 4 mãos; 90 minutos; 260 euros.

Costuma dizer-se que dois é bom, três é demais. Mas, na penumbra daquela primeira sala de tratamento, sermos três não parece demasiado. Especialmente se pensarmos que se trata de uma massagem completa de corpo inteiro feita com movimentos simétricos e sincronizados, numa quase dança, ora em harmonia, ora em direcções opostas. A sensação é sublime, porque nunca sabemos onde acaba uma mão e começa outra. Nenhuma parte do meu corpo se sentiu órfã enquanto outra se deleitava. Uma verdadeira sinfonia que, muito rapidamente, me fez descobrir o nirvana. Pelo menos assim me pareceu. Uma espécie de transe, um torpor que só me puxou novamente à Terra quando entraram em acção as pedras quentes, nas costas e na planta dos pés.

[sou um grupo de neurónios semi-adormecidos]

O Soothing Body Oil by ESPA – foi-me dado a escolher entre dois aromas, escolhi este, mais calmante. O Outro, igualmente agradável, tinha qualidades energizantes. “Fica para outra vez…”, justifico – faz efeito quase de imediato. A dança das quatro mãos ajuda, certamente. E quando a massagem se concentrou nas extremidades, cabeça e pés, instalou-se o relaxamento total. Sinto-me estremecer de cada vez que venho à tona, emergindo das profundezas do meu subconsciente em recuperação. É essa a sensação, a de estar a sarar. A lamber feridas, por muito feia que seja a imagem. É a maravilhosa entrega, o total abandono, o desligar de ficha.

[sou um espírito que voa, um corpo em estado K.O. abandonado em pleno ringue por uma alma que ameaça não voltar]

São 90 minutos disto. Tempo suficiente para viajar pelos recantos do meu cérebro e descobrir que resta apenas um neurónio desperto. E que pouco interessa o projecto violento de Tyler Durden. A redenção existe, chama-se “Sinfonia”, é tocada a quatro mãos pela orquestra do Ritz Spa e custa uns singelos 260 euros. Muito pouco por um pedaço de paraíso.

Marcações em 213811400
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Nota da Autora: o início este texto foi adaptado de um que escrevi há cerca de dez anos na Fora de Série.

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