“O meu sonho é que as mulheres queiram ter tantas jóias como têm sapatos”

Gargalhadas, muitas gargalhadas. É um prazer entrevistar um vice-presidente de uma companhia tão descontraído. Ronaldo Stern passou por Lisboa em Abril para mostrar as novidades da H. Stern. Riu, contou histórias, falou de mulheres e do seu infinito poder. E encantou.

Brasileiro de meia-idade, bonacheirão e divertido. Ronaldo Stern é o vice-presidente da H. Stern, marca joalheira número um no Brasil, fundada pelo seu pai, Hans Stern, refugiado judeu na II Guerra Mundial que se apaixonou pelas pedras coloridas deste país tropical. Mas Ronaldo não tem pinta de vice-presidente. Quem sabe não trouxe a descontracção de Nova Iorque, onde viveu décadas, criou a família, foi ‘coach’ de futebol no subúrbio e andou por Hollywood a promover a marca da família? A entrevista que se segue dá a conhecer o homem por trás da marca.

A H. Stern faz este ano 70 anos. O Ronaldo já nasceu num mundo de jóias. Alguma vez sonhou que iria dedicar-se a esta actividade?
Pois é, não, nunca sonhei. Apesar de sempre me ter interessado. E de quando era miúdo ter acompanhado os meus pais em algumas viagens, a visitar lojas. Não vivia rodeado de jóias – era mais carrinhos e espadas (risos). O meu pai sempre nos incentivou a fazermos o que quiséssemos. E eu, na verdade, acabei por seguir uma carreira diferente. Eu gostava muito de matemática, acabei por estudar engenharia e segui a área informática. Trabalhei em algumas empresas até na área de pesquisa. E um belo dia, estava a mudar de emprego – estava na IBM -, estava à procura de seguir uma área mais concreta. E o meu pai e o meu irmão (Roberto, actual presidente da empresa), chamaram-me para trabalhar com eles, para por a parte informática da empresa a funcionar. Eu fui e tomei o gosto.

É bom trabalhar em família?
É difícil, mas quando funciona é muito bom. Já tive fases piores, mas agora estou numa fase maravilhosa com o meu irmão. Está a correr muito bem, nós complementamo-nos. Ele é muito criativo, eu sou mais metódico. Quando existe respeito, a coisa funciona bem. E não é só caso de respeito e confiança. A grande vantagem de uma empresa familiar é a visão de longo prazo que existe. Um executivo pode ter muitas qualidades, mas ele não enxerga a longo prazo como nós. Às vezes preferimos fazer menos coisas agora, mas ficar a construir a marca para o futuro. Porque sabemos que daqui por vinte anos vamos continuar ligados a ela.

As três gerações Stern: Roberto (actual CEO e irmão de Ronaldo), Ronaldo e Hans, o pai, fundador da marca, que entretanto morreu.
As três gerações Stern: Roberto (actual CEO e irmão de Ronaldo), Ronaldo e Hans, o pai, fundador da marca, que entretanto morreu.

 

A marca fez um grande sucesso com as colaborações especiais de Diane Von Furstenberg, o Grupo Corpo, o Oscar Niemeyer… Vão continuar a existir estas colaborações?
Há um universo ilimitado de colaborações para explorar. Podemos fazer isso a vida inteira e vai sempre ser uma visão diferente. As parcerias são boas porque são uma boa forma de exercitar o músculo da criatividade dos nossos designers. Porque na hora em que o meu irmão – ele é que inventa – propõe, os nossos designers têm de acompanhar e interpretar a visão dele. A criatividade é como um músculo, se ficar parada desaparece. Quanto mais estimularmos, mais se desenvolve. Por isso aquela técnica de encomendar uma jóia com determinada pedra e um preço pré-definido, não é boa. O que queremos é pegar em todo um mundo que não tem nada a ver com jóias e fazer uma colecção. Uma jóia tem de ser bonita só de olhar. Mas não chega. Se ela tiver uma explicação de onde vem, como foi criada, fica mais interessante. Uma história dá-lhe emoção, dá um interesse maior.

Como se transformam emoções em jóias?
Tem a ver com a sensibilidade dos designers. No caso do Niemeyer, o meu irmão estava a trabalhar com ele quanto ele tinha 99 anos. Ele disse-lhe: “como é que eu vou fazer jóias a partir do teu trabalho? As tuas peças são pesadas… Uns brincos assim vão rebentar com as orelhas das mulheres”. E aí o Niemeyer, velhinho que estava, disse: “Roberto, dá uma olhada nos meus desenhos!”. Quando ele foi ver o livro de desenhos dele, ficou apaixonado. Foi aí que se deu o clique e a colecção nasceu.

Hoje em dia já vemos jóias da H. Stern em quase todas as red carpets do mundo, incluindo nos Óscares de Hollywood. Onde falta ainda ver as jóias da sua empresa?
Falta, por exemplo, vê-las em si.

Ah, mas estou completamente de acordo!
(Risos) Dá-me um prazer especial ver as pessoas a usarem as nossas jóias no dia-a-dia, a mostrar nas ruas. Não é preciso ser vista na red carpet para brilhar. Nós costumamos brincar com o nome, “stern” quer dizer “estrela” e quem usa as nossas jóias pode não ser uma estrela, mas transforma-se numa. Para nós, as nossas clientes são estrelas. Tiro um prazer especial quando vejo uma mulher a comprar, a receber uma jóia, a namorá-la, a ver os detalhes, a acariciar a jóia. Mesmo no meu caso, quando dou uma jóia à minha mulher, ela fica encantada. Eu adoro isso. É um prazer para quem recebe e para quem dá.

Das minhas peças preferidas nas vossas colecções – especialmente na da Diane von Furstenberg – são aqueles power rings, que acho verdadeiramente poderosos! Hoje em dia fala-se muito da igualdade do género, o poder feminino. Acha que estamos a caminhar para uma sociedade mais igualitária, ou pelo contrário?
Alguns países sim, mas ainda temos metade do mundo a viver na idade da pedra. Ainda há um caminho longo para percorrer. Tudo depende da educação.

Os power rings, criados por Diane Von Furstenberg para a H. Stern, são símbolo do poder feminino.
Os power rings, criados por Diane Von Furstenberg para a H. Stern, são símbolo do poder feminino.

Quando fizeram aquela colecção, foi também a pensar nesse empowerment feminino?
Talvez inconscientemente. Ficámos muito impressionados com a Diane, porque ela emana um poder especial. O meu irmão diz a brincar que quando ele fez aquele anel com ela, ela adorou. É a cara dela. Quando começaram a falar, ela disse que queria fazer coisas grandes, bold. Nessa altura, a joalharia não fazia coisas dessas. Nós fomos os primeiros e foi ela que insistiu nisso. Nesse ponto realmente lançámos uma tendência. E foi por conta dela. Ela disse: “I want something bold, I’m a bold person”. O meu irmão, quando fez o tal power ring, fez em três tamanhos. E teve graça, porque não podíamos chamá-los de “grande”, “médio” e “pequeno”, porque o pequeno não era nada pequeno! E aí criámos o “classic”, “large” e o “bold”. Foi como no Starbucks. (risos) O meu irmão bricava com ela: “Diane, eu tenho medo de si com esse anel. Você dá-me um soco e eu vou cair. É muito power!!!” Ela ria imenso.
E sabe uma história engraçada: quando a conhecemos ela tinha o escritório em Nova Iorque na Rua 12. Depois ela mudou-se para a 14, onde agora tem o escritório e a loja. No último andar, ela tem uma suite onde dorme quando está em Nova Iorque – porque a casa dela é em Connecticut. O tecto dessa suite dela tem o formato do nosso anel. Ela fez e nem nos perguntou! (risos)

Além dos dois filhos rapazes, tem também uma rapariga. Preocupa-se com o mundo em que a sua filha vai viver?
A minha filha (tem 14 anos) foi criada para ser independente, para não depender de nenhum homem. Eu acho que uma mulher feliz não depende de um homem, está com um homem porque quer. Ela foi criada assim, agora se a sociedade vai comportar-se como tal… só o futuro o dirá. As nossas jóias também caminham nessa direcção. Há muito tempo que o nosso foco é aquela mulher independente, que compra as suas jóias, não depende do marido. Eu não quero que a mulher seja, no futuro, igual ao homem. Não é esse o caminho.

Quando se fala em igualdade, refere-se mais a igualdade de oportunidades de trabalho, os cargos de chefia, os salários…
Aí sim, há muito que fazer. Mas sabe que a nossa empresa sempre teve mais mulheres que homens? O meu pai, nessa medida, era um homem à frente no seu tempo. Ele achava que as mulheres eram mais confiáveis, até em cargos de administração. A profissão de ourives era só de homens, antigamente. Hoje a maioria é mulher. Sempre crescemos com esse pensamento. Nunca mais me esqueço que um dia estava a entrevistar uma pessoa para um cargo médio alto e ela disse-me: “tenho uma coisa para lhe dizer (assim quase a pedir desculpa): eu estou grávida…” e eu disse “Parabéns”. Eu quando contrato uma pessoa, não estou só a pensar no próximo ano. Quero que ela fique nos próximos vinte ou trinta anos. Acho que o jogo está a virar. Há cada vez mais mulheres a estudar. Apesar de ainda serem muito poucas as que chegam aos boards das companhias.

A actriz alemã foi a eleita para ser embaixadora da H. Stern em 2014. Ronaldo Stern está feliz com a escolha.
A actriz alemã foi a eleita para ser embaixadora da H. Stern em 2014. Ronaldo Stern está feliz com a escolha.

Que mulher da actualidade, se dependesse de si a escolha, escolheria para embaixadora da H. Stern?
Escolhia a Diane Kruger [Diane é, desde 2014, embaixadora da marca e hoje, 15 de Julho, é o dia do seu aniversário]. Sabe outra mulher poderosa que usa muito as nossas jóias? A Oprah.

A Angelina Jolie também, até desfilou nos Óscares com um colar H. Stern. Como foi o processo? Ela é que vos contactou, ou o contrário?
Há de tudo. Quando é um evento mais concorrido, nós vamos mostrar o que temos. Normalmente, eles estão à procura de alguma coisa que combine com o vestido que vão levar. Com a Angelina Jolie foi ao contrário: quase que não conseguimos fazer a parceria porque ela não estava a encontrar um vestido que ali ficasse bem. É que era uma senhora jóia!

O colar "Athena", da H. Stern, que Angelina Jolie passeou na red carped dos Óscares.
O colar “Athena”, da H. Stern, que Angelina Jolie passeou na red carped dos Óscares.

Sim, com um colar daqueles ela nem precisava de um vestido, podia ir nua.
Bom, aí tenho de discordar, porque ninguém ia ver a jóia… Mas foi uma excepção.  Muitas vezes o que acontece nestes eventos é que nós emprestamos a jóia, eles dizem que vão usar, e quando chega a hora mudam de ideias no táxi e afinal não usam. Eles – não as celebridades, mas os stylists delas – ligam muito para nós, porque sabem que podemos fazer este tipo de parcerias.

Como acha que vai ser o futuro da joalharia? O que as pessoas vão querer cada vez mais?
É mais fácil saber o futuro do Euro, ou da Grécia… Não sei qual é o futuro. O desafio da joalharia moderna é fazer algo que esteja de acordo com as tendências mas que esteja bem daqui a dez anos. É uma tendência, não é uma moda. Ninguém quer investir numa jóia fina para daí a dois anos descobrir que afinal já não gosta. O grande desafio é esse: ser sempre actual.

Nesta fase em que os relógios atravessam uma nova fase, com a chegada dos smartwatches, pelo menos essa não é uma preocupação sua, uma vez que ainda não se fala em smart jewels
(Risos) Olhe que, já não me lembro quem, alguém me disse que era interessante eu fazer um smart ring que teria a função de medir as calorias que ingerimos ao longo do dia.

Espectacular, eu compraria!
É, mas eu não vendo. Sabe porquê? É que eu acho que uma jóia só deve conter emoções boas. Não quero misturar ali a parte estética e de bem-estar. Mas atenção: eu não sou contra a tecnologia. Veja o meu background. Quem sabe no futuro não conseguimos criar alguma jóia que emita emoções boas, sentimentos positivos, ondas alfa, feromonas (risos)! Aí eu fazia.

Ronaldo passou por Lisboa no pós-Basileia para mostrar as novidades que celebram os 70 anos da marca. (c) Fotografia de Paula Nunes para Fora de Série
Ronaldo passou por Lisboa no pós-Basileia para mostrar as novidades que celebram os 70 anos da marca.

 

Achei graça porque estive a ler entrevistas suas e uma vez disse, que as jóias da H. Stern eram “um misto de jóias feitas por quality freaks alemães, mas com a sensualidade brasileira”. Uma mistura explosiva.
É. O meu pai era o alemão. A nossa empresa tem as duas culturas em si. Já não há lá alemães a trabalhar, mas a cultura ficou. Ele tinha duas obsessões: qualidade e respeito.

Ainda há um alemão dentro de si?
Só nos valores que ficaram do meu pai. Mas eu tenho muito mais de brasileiro. Só não sei sambar muito bem… Aí o meu sangue alemão manifesta-se.

E os relógios, correm bem?
Os nossos relógios têm muito sucesso no Brasil. São uma marca forte, fabricada na suíça, mas não é o foco do nosso negócio. Temos um clássico, que é o “Safira”, já com 30 anos. E é uma peça que ou se adora ou se odeia. E ainda vende muito. Mas não é uma percentagem muito representativa do negócio. Também nos perguntam porque não fazemos jóias para homens, mas não queremos fazer uma linha só por fazer, sem sequer saber para que homem é. Preferimos focar-nos na mulher. Não é bem como ter sapatos, mas uma mulher adora ter jóias. O meu sonho é que as mulheres queiram ter tantas jóias como têm sapatos.

O que faz nos tempos livres?
Gosto de comer, de sair com os meus filhos, de desporto, de ir à praia. De viajar para Búzios. Em Nova Iorque eu morava nos subúrbios. Os meus filhos eram pequenos e os meus fins-de-semana eram passados a levá-los para fazer desporto. Fui coach de futebol. Bem à americana!

Fazia mesmo como eles, bebia packs de Budweiser?
Totalmente! Em Roma sê romano. E os Estados Unidos têm coisas muito boas. A parte da caridade é muito bem organizada. Estou a começar a fazer agora nos meus tempos livres uma coisa diferente. Participo numa organização não-governamental – a World Fund Stem Brasil – na área da educação, que treina professores do ensino público na área das ciências. O meu país está muito carente de educação, carente de pessoas na área técnica, das ciências. Está a dar-me muito gozo. Foi algo que trouxe da cultura americana.

O que nunca pode faltar na sua vida?
Mulher. Estou a brincar!

Agora a sério.
Mulher.

Esta entrevista foi parcialmente publicada na Fora de Série (Edição Especial Jóias e Relógios, Maio de 2015) e podem lê-la na íntegra aqui.

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