Pureza

Ela era linda.

Nunca mais me vou esquecer do dia em que ela foi lá para casa. Tinha dois meses, tão pequenina que cabia no bolso da frente das minhas jardineiras. Usavam-se nessa altura. Tinha-a escolhido umas semanas antes, entre uma ninhada de 8 maravilhosos Springer Spaniels. Passei uma boa meia hora a espreitar aquela família, mãe e filhotes, num rebuliço, todos a quererem mamar, uns mais expeditos que outros. A Pureza conquistou-me logo. Era a mais bonita, com a mistura certa entre o castanho e o branco, o focinho malhado, cheio de pinta(s). De feitio, estava no ponto: não parecia agressiva, nem ter demasiada personalidade. Mas também não era amorfa. Uma cachorrinha amorosa que em breve se tornaria no meu primeiro cão.

Não avisei ninguém lá em casa. Foi surpresa. Sabia que era um risco, mas também conhecia os meus pais, tinha a certeza que, tal como eu, se apaixonariam por aquela bolinha de pêlo. Acertei. A Pureza entrou nas nossas vidas em Junho de 1997 e saiu, tristemente, há exactamente quatro anos. Mas enquanto viveu, foi uma cadela feliz.

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Um bebé, à chegada. Sempre com a sua bandana cor-de-rosa ao pescoço.

A casa era toda dela. Nunca quis ficar confinada à cozinha, onde tinha a cama e os brinquedos. Aos três meses, aprendeu a abrir a cancela da cozinha e levava todos os seus pertences para os nossos quartos. Como que a mostrar-nos onde queria ficar. E a prometer-nos que se portaria bem. Cedemos. Do chão às camas foi um pulinho. Dormia comigo na cama – partilhávamos a almofada, para horror dos meus pais. Foi, durante 14 anos, minha amiga, companheira, parte da família.

Era inteligente, percebia tudo, só lhe faltava falar. Eu conversava com ela e ela movia as orelhas, sempre despenteadas, lançava-me um olhar entendido. Ela sabia – simplesmente sabia – quando a vida me corria pior ou quando estava feliz. E agia em conformidade. Foi comigo de férias. Tornou-se mascote do meu grupo de amigas. Participou nos trabalhos da faculdade. Chegou a acompanhar-me à redacção do Diário Económico – deitou-se debaixo da minha mesa e deixou-me trabalhar. Entrou num editorial de moda fotografado pelo Carlos Ramos.

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Às vezes portava-se mal, mas este olhar culpado aliviava sempre o castigo.
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Foi a estrela de um editorial de moda de Outono na Fora de Série, pela lente do Carlos Ramos, algures em 2006. Portou-se pessimamente, por isso só entrou numa foto.

Adorava pedras. Não havia brinquedo melhor. Ensinei-lhe truques de circo, à custa de muito  biscoito, com a ajuda do meu irmão. Deitava, sentava, dava a pata, fingia de morta, só comia quando tinha autorização. Só gostava de água fresca, bebia do bidé. Com a pata aprendeu a abrir a torneira da água fria e bebia. Nunca consegui ensiná-la a fechar a torneira…

Seguia a minha mãe como uma sombra ao longo de todo o dia. Sabia que era dali que vinham as melhores guloseimas. A minha mãe convenceu-se que a ração para cães era demasiado sem sabor para a nossa princesa de quatro patas. Por isso, durante dois meses, ia ao talho comprar “franguinho” e “carninha” e cozia arroz e cenoura para alimentar a “filha” mais nova. A Pureza lambia-se toda, claro. Achou que lhe tinha saído a sorte grande, até que o veterinário acabou com a festa gourmet. Comeu sempre a ração a contra-gosto. Quem a podia censurar?

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Mas às quintas-feiras era compensada. Não me perguntem como, mas ela sabia sempre quando era quinta-feira. Dia em que, às 8h30 da manhã em ponto, a Maria Eugénia, a cozinheira, aparecia para nos encher o cozinha de iguarias: pastéis de massa tenra, feijoada, rissóis de camarão, guisado de frango, lombo assado, lulas no forno… Nessa madrugada, a Pureza montava-lhe espera no tapete da entrada, com o nariz colado na porta. A Maria Eugénia não era de muitas palavras. Mas mostrava-lhe o seu afecto oferecendo-lhe as peles do frango, os restos de massa de rissóis, umas gordurinhas que separava para a sua amiga canina.

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Companheira das tardes de praia durante o 5º ano da faculdade.

Com o meu pai, tornou-se marinheira. Acompanhava-o nas suas deslocações constantes ao barco, guardado na doca de Santo Amaro. A Pureza tinha o seu próprio colete salva-vidas. E um cabo grosso, com um nó na ponta, que adorava roer. Sentava-se à proa e ficava de guarda à sua fortaleza flutuante. Ladrava a quem se atrevesse a passar perto. Era ao pai que ela acordava, a qualquer hora da noite, a pedir para ir ao jardim. Era uma pessoa, não uma cadela. Ela, pelo menos, assim o achava. Nunca conheceu cão-macho, morreu virgem. Nenhum cão estava à sua altura.

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No Tejo, no barco do dono, com o colete vestido. Caiu à água tantas vezes que foi preciso resolver o problema.

Chegou o dia em que saí de casa dos meus pais. Estava na hora de seguir com a minha vida. Mas a Pureza ficou. Aquela era a casa dela, desde bebé. O que faria sozinha num mini apartamento vazio de mulher solteira? Da minha cama, saltou para a do meu irmão. E as rotinas mantiveram-se, embora a energia já não fosse a mesma. Foi tendo algumas peripécias de saúde. Foi atropelada. Operada, mais do que uma vez. Foi ficando velhota, surda, com cataratas, desdentada (à conta das pedras), gulosa e teimosa, sempre aquela princesa que só fazia o que queria.

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Também foi ao casamento da dona, por pouco não era dama de honor.

Continuou a receber-me com uma festa à porta e a ir de férias comigo. Ainda conheceu o meu filho, de quem morria de ciúmes. Ela percebeu que não havia amor maior que aquele, o de uma mãe por um filho. Mas tenho a certeza de que não me levou a mal. Há quatro anos, ao vê-la doente, sem andar, sem comer, triste, sem conseguir fazer aquilo que mais gostava, tive de tomar uma das decisões mais difíceis da minha vida. Tive de a pôr a dormir para sempre. Tinha jurado a mim mesma que prolongaria a vida da Pureza até perceber que ela sofria. E naquele mês de Agosto não tive dúvidas de que tinha chegado a hora. Faz hoje quatro anos. E ainda custa tanto.

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Durante anos, continuei a ouvir-lhe os passos pela casa. Juraria que, nas noites mais silenciosas, ouvia o tilintar da medalha que ela trazia ao pescoço. Hoje tenho o Cacau. Em comum com a Pureza, só tem uma ligeira semelhança física. É um bonito cão, como ela era. Tem a energia de um coelho da Duracell, é teimoso, estouvado, tonto, abrutalhado, cheio de personalidade, mas um doce de cão. Há algo da Pureza nele. Por isso perdoo-lhe tudo.

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