Throwback Post: Dolce vita pós-moderna

Um relato na primeira pessoa, semi-ficcionado, de um passeio real, de Milão ao Monte Branco, de Turim a Pessione, com direito a Martinis e Ferraris. Um invejável banho de ‘lifestyle’, onde só entra o que é ‘made in Italy’.

Encarei a proposta do meu marido como faço com todas. Mais uma viagem. Banal. Já nem me dou ao trabalho de pensar muito nisso. Interpreto as entrelinhas. Itália. Milão. Alpes. Três dias de carro. Valerá a pena? Já esquiei no Monte Branco. Fui às compras a Milão centenas de vezes (pronto, dezenas…). Já tinha percorrido de carro todo o norte de Itália. E não adoro particularmente carros desportivos. São barulhentos e desconfortáveis. Porque haveria de gastar o meu tempo a fazer mais do mesmo?

Preparava-me para recusar categoricamente e bater-me até ao fim por aqueles dias paradisíacos que ele me prometera em Mustique. Mas ele queria tanto… há anos que me falava do seu ideal de passeio romântico a dois: de Ferrari pelas curvas dos Alpes italianos, parando nos miradouros para esticar as pernas, almoçando em pequenos restaurantes gourmet, parando para dormir em albergues familiares.

A custo, lá concordei. Na condição de passarmos um dia em Milão. Se era para mergulhar no verdadeiro lifestyle italiano, então o roteiro teria de incluir uma paragem na Prada, outra na Gucci e mais uma no Valentino. Uma pausa para uma San Pellegrino no Armani Café. Mais compras na Missoni, sapatos no Ferragamo, uma jóia, talvez, na Bulgari, e acabar a tarde na Bottega Veneta, enquanto ele se delicia na Zegna e na Brioni. Antes do jantar, um cocktail de fim de tarde na Martini Terrazza, antes de seguirmos para jantar no requintado Gold, o restaurante dos Dolce & Gabbana. Só assim estariam reunidas as condições para, no dia seguinte, arrancarmos para a viagem de sonho. Dele. Porque a minha já sabemos… o tal paraíso nas Caraíbas.

Menos de uma semana depois, aterrávamos cedinho no aeroporto de Malpensa, em Milão. O dia correu tal como eu tinha imaginado. Só que com mais sacos de compras. Foi com um enorme sorriso vitorioso que me sentei na varanda do Martini Terrazza para, com vista para catedral do Duomo, decidir qual seria o cocktail que me faria relaxar de tanta dolce vita. Um “Vodka Martini”, shaken, not stirred, em homenagem ao agente 007? Não. Pedi antes um “Cosmopolitan Martini”, inspirada nas protagonistas de “O Sexo e a Cidade”, quase tão shoppaholics como eu.

Martini Terrazza em Milão, com vista sobre o Duomo.
Martini Terrazza em Milão, com vista sobre o Duomo.

Andava eu perdida em devaneios sobre como aquele terraço num 15º andar de um prédio milanês já tinha recebido celebridades tão globalmente italianas como Frederico Fellini, Marcello Mastroianni, Visconti, Sofia Loren, Pasolini, Luciano Pavarotti, saboreando o meu doce “Cosmopolitan”, quando apareceu o meu marido, excitadíssimo, com dois homens vagamente familiares pelo braço.

Tinha ido procurar um mapa para, ali, traçarmos o nosso destino do dia seguinte, inteiramente dedicado ao asfalto. Mas em vez de um guia de estradas, trazia amigos. A coisa prometia… “Querida! Temos companhia na nossa viagem!”.

Suspirei ao imaginar que o nosso fim-de-semana romântico seria, afinal, passado a quatro. O meu ânimo piorou consideravelmente quando percebi quem eram os dois companheiros do meu marido. Nada mais nada menos que as duas lendas do automobilismo nos anos 80 – Markku Alen e Miki Biasion. Lembrava-me deles, sim. Com mais uns anos em cima, mas eram eles, os campeões do mundo de rallies, da equipa Martini Lancia.

Rapidamente puseram-me a par do porquê da nossa mudança de planos. Ao que parecia, a Martini celebrava agora os 40 anos da sua paixão pelo asfalto. Quatro décadas desde que a marca de bebidas italiana se associou, como sponsor, ao desporto motorizado, criando a Martini Racing, patrocinadora de equipas de rally e de Fórmula Um.

Mais: tiveram a mesma ideia que nós. No dia seguinte, partiriam de Milão, com um enorme staff, para um passeio pelas curvas do Vale de Aosta até Courmayeur. Dalí, no outro dia, seguiriam para Turim, para uma visita a Pessione, a terra onde nasceu a Martini. E, surpresa, tinham à disposição uma frota de Ferraris novinhos em folha (nada do género do velhinho Testarossa, com mais de vinte anos, que tínhamos conseguido alugar), tudo modelos de 2008, para acelerar até ao destino. Ah, e estávamos convidados.

Pois bem. Entre o Testarossa podre e um novíssimo e confortável 599 GTB Fiorano, todo forrado a pele, com GPS e uns quantos luxos, não havia que enganar. Não me importava de deixar cair o apêndice “romântico” do nosso passeio se isso significasse ter boas condições de viagem, um cicerone como a Martini – que pressupunha bar farto à chegada, mas nunca durante o caminho, pois o slogan da marca, “Be Responsible, Please Don’t Drink And Drive”, é levado à letra – e os dois heróis do volante, cuja simpatia já me tinha conquistado, como guias. Só uma condiçãozinha: eu também queria conduzir.

Ferrar Dashboard

Quilómetros 0 a 335       

Para trás, no hotel de Milão, ficaram os mil e um sacos de compras e a má disposição. Connosco, só um saco de fim-de-semana, máquina fotográfica, roupa e sapatos confortáveis (adeus look Mónica Bellucci!), óculos escuros e chapéu. Até porque as bagageiras dos Ferraris não são as mais indicadas para pessoas que, como eu, viajam com verdadeiros pianos de cauda com roupa dentro.

Ofereci-me para guiar o tal Fiorano, cinzento, lindo, na primeira parte do caminho até Stresa, onde faríamos uma pausa para almoço no simpático hotel-boutique Villa Aminta. No início sem grande graça, pois não há nada mais aborrecido do que ter nas mãos uma máquina que pede para andar e não pode, que atinge os 200 Kms/h em 11 segundos e segue ensanduichada no trânsito matinal que tenta sair da capital do norte italiano. A A8 é policiada e tem radares, por isso o ronronar do motor do nosso Ferrari quase podia ser o de um Fiat, que dava no mesmo. Só quando saímos para as imediações do Lago Maggiore é que a condução começou a aquecer, distraindo-nos da paisagem calma das águas do lago e das casinhas e ancoradouros que o ladeiam, mais preocupados com as curvas estáveis e com o modo racing que o motor V12, com caixa de Fórmula 1, nos permite fazer.

Markku Alen ao volante

De repente, quase senti romantismo no ar. Não fosse ter, à minha frente, a traseira azul-eléctrica de um 430 Spider e, atrás, os decibéis roucos de um 430 Scuderia… Mas o Villa Aminta, um palacete do século XIX convertido em hotel, ficou na minha lista de spots a regressar. Não só pela atmosfera intimista da decoração, com os seus lustres de cristal Murano, as antiguidades e as obras de arte espalhadas pelas salas, como pela sua invejável situação, virado para o lago, com vista sobre as pequenas ilhas e a praia privativa. Ancoradouros, piscina, court de ténis, um spa inspirado no Taj-Mahal e restaurante gourmet, são argumentos de peso que explicam bem o porquê de o casal de actores Elizabeth Taylor e Richard Burton ter escolhido este recanto para passar uns dias de idílio em 1966.

Vila Aminta fica nas margens do lago Maggiore.
Villa Aminta fica nas margens do lago Maggiore.

Ainda com o travo do risotto no paladar, arrancamos, desta feita a bordo de um Scuderia. Se por instantes me terá passado pela cabeça dormir a sesta, tal ideia esvaneceu-se por completo ao ouvir o ruído daquele motor V8 e ao fim de cinco minutos sentada naqueles bancos ‘Super Racing’ em fibra de carbono. Tarefa impossível, já que este carro tentava, constantemente, fazer-nos esquecer que o Código da Estrada existia. Uma luta com o acelerador, que teimava em chegar ao fundo desviava-nos a atenção da paisagem verdejante da região de Piemonte, povoada de castelos, com o irritante GPS em pano de fundo, a indicar o caminho até à paragem seguinte, em Pont St. Martin. Nesta povoação, já no Vale de Aosta, pudemos ver a famosa ponte romana, datada do século I antes de Cristo, que dá o nome à terra, antes de nos prometerem um lanche à moda dos Alpes no restaurante Cave Du Vin Blanc, em Morgex, já bem perto do nosso objectivo final: Courmayeur.

A Cave du Vin Blanc fica em Morgex, a caminho do Monte Branco.
A Cave du Vin Blanc fica em Morgex, a caminho do Monte Branco.

Dali saímos já a bordo de um Ferrari 612 Scaglietti, o único da frota lançada este ano com capacidade para quatro pessoas, que partilhámos com Markku Alen. Com ele ao volante deste portento, desenhado por Pininfarina, com tecto em vidro panorâmico, em vez de uma recatada tarde de passeio, vivemos as emoções mais fortes do dia, a subir até ao topo do Colle San Carlo. O ex-corredor profissional levou o carro ao limite nas curvas e contra-curvas do monte. Tanto, que à chegada ao local onde passaríamos a noite, o Auberge de La Maison, saía fumo do motor. E nós ansiávamos por um Martini – tónico, com sumo de maçã, puro ou com morangos, fosse o que fosse –, por um banho e por uma massagem. Não necessariamente por esta ordem.

O conforto de um albergue de montanha, refúgio cosy e campestre.
O conforto de um albergue de montanha, refúgio cosy e campestre.

Caía a tarde neste lugar único no mundo, num vale, bem aos pés do Monte Branco que, em Junho, se mantinha ainda coberto de neve. Entre o verde do pasto onde, de manhã, se passeiam vacas, vagarosamente, e o azul do céu e dos glaciares, fica este elegante chalet alpino onde os anfitriões exercem, com distinção, a arte de bem receber. Neste refúgio cosy, jantamos à luz de velas e dormimos o sono dos justos, prevendo, no dia seguinte, mais emoções fortes.

Quilómetros 335 a 422

O dia amanhece fresco, como que a recordar-nos que estamos no coração dos Alpes, onde ainda há gelo em pleno Verão. O arranque é cedo, mas o abuso de consumo de Martinis da véspera nem se faz sentir. Os ares da montanha consomem tudo.

O Caffè Torino é o mais emblemático e antigo) de Turim.
O Caffè Torino é o mais emblemático e antigo) de Turim.

Agasalhados, no nosso 430 Spider, preparamo-nos para o bronzeado. O carro é descapotável e desta vez prometemos que nos vamos portar bem, andar devagar (dentro do possível) e chegar, 80 quilómetros depois, sãos e salvos, à praça central de Turim, onde nos espera um almoço no mítico Caffè Torino, onde, nos anos 30, os Sabóia, membros da família real italiana, gostavam de ir. Isto antes de seguirmos, num 430, até Pessione, a 10 minutos do centro de Turim, para conhecer as origens da Martini. A casa, as caves, o museu, uma terrazza… está lá tudo. Da colecção de artefactos ligados à produção de vinho – ânforas egípcias, loiça de vidro romana, garrafas de vermute antigas, colecções de rótulos, prensas de uvas em madeira com vários séculos – até à sala Mondo Martini, onde, em suportes do século XXI – filmes, cartazes publicitários, maquetas, protótipos de carros de corrida… – podemos ficar a conhecer toda a história da companhia.

Foi nesta casa que nasceu a Martini. Ali é possível conhecer o museu e desfrutar da terrazza.
Foi nesta casa que nasceu a Martini. Ali é possível conhecer o museu e desfrutar da terrazza.

Mas, na verdade, o que apetece mesmo é ficar na terrazza a desfrutar de um Martini. Desta vez será Rosato, com umas folhitas de hortelã e água com gás. Para adoçar o caminho de volta a Milão, onde nos esperam as compras de há dois dias. E onde prometemos voltar. Porque a viagem romântica do meu marido ainda está em dívida. Esta foi só um ensaio.

Spots de paragem:

Martini Terrazza
Piazza Diaz, nº7, 15º andar.
Milão, Itália
Tel.: +39 0118108301
E-Mail: [email protected]

Villa Aminta
Via Sempione Nord, nº123
Stresa (Verbania), Itália
Tel.: +39 0323933818
E-Mail: [email protected]
URL: www.villa-aminta.it
Suite imperial para 8 pessoas, 590 euros/noite.

Cave Du Vin Blanc
Chemin des Iles, nº31
La Ruine, Morgex, Itália
Tel.: +39 0165800331

Auberge de La Maison
Courmayeur, Entreves, Aosta, Itália
Tel.: +39 0165869811
URL: www.aubergemaison.it

Caffe Torino
Piazza San Carlo, nº204
Turim, Itália
Tel.: +39 011545118
E-Mail: [email protected]

Mondo Martini
Piazza Luigi Rossi, nº2
Pessione di Chieri, Turim, Itália
Tel.: +39 01194191
E-Mail: [email protected]
URL: www.martinierossi.it

Nota da Autora: Este texto foi escrito em Julho de 2008 e publicado na edição da Fora de Série do mesmo mês. 

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