“Tenho pânico de chegar atrasada”

Para a Omega, Nicole Kidman é muito mais que uma embaixadora que celebra dez anos de ligação à marca. Ela é como parte da família. Ao observá-la sentada, placidamente, numa cadeira a responder às perguntas dos jornalistas, sem hesitar, sem fugir, percebe-se porquê. A actriz australiana é a embaixadora ideal. Com uma imagem clean, veste na perfeição o papel da mulher moderna, independente, ocupada, focada na carreira sem descurar a família. Fui a Milão conhecer esta mulher do seu tempo. E dona do seu tempo.  

Parece ter uma grande afinidade com a Omega. Pode falar um pouco dessa relação de dez anos?
A Omega para mim é como se fosse família. Já os conheço há uma década e a marca é muito estável, muito íntegra, são as pessoas mais queridas do mundo para se trabalhar e são muito atenciosos no apoio que dão ao meu trabalho enquanto embaixadora da UN Women. É uma empresa muito preocupada com os direitos das mulheres. Esta campanha – e a exposição que vimos – ilustra muito bem essa preocupação, que já existia mesmo no início do século XX, no tempo em que as mulheres não eram encorajadas a usar relógio. Pelo contrário, só lhes era permitido ter relógios disfarçados em pulseiras ou pendentes. Nessa altura a Omega já olhava para as mulheres como parte de um mercado igualitário e eu acho isso fascinante. Isso diz muito sobre uma companhia. Apesar de os relógios serem peças consideradas muito masculinas, a Omega é muito dedicada às suas consumidoras mulheres. A marca quer que nós, mulheres, usemos relógios não só porque é elegante ou funcional, mas porque nos ajuda a gerir o nosso tempo. Ela sabe que nós temos tanta apetência por tecnologia e mecânica como os homens.

Qual a sua relação como o tempo?
É preciosa. Quando temos filhos, apercebemo-nos do quão depressa ele passa. A minha filha mostrou-me, no outro dia, alguns vídeos dela que tínhamos num iPad, em que ela só tinha três anos, estava a aprender a ler. Partiu-me o coração, porque ela agora tem sete anos, passaram-se quatro anos sem que dessemos conta. Isso é difícil de aceitar e entristece-me que o tempo passe tão rápido. Obviamente, à medida que vamos envelhecendo, começamos a desejar que o tempo desacelere. Muita gente à minha volta começa a falar nisso, no “desacelerar da vida”. É o chamado tempo lento, quando desfrutamos mais da comida, passeamos mais calmamente… e eu adoro esse conceito. E apoio-o. Temos de encontrar esse equilíbrio, senão, vamos andar sempre a correr sem experimentar a vida. De vez em quando tenho de me lembrar disso.
Há tantas coisas que me despertam a curiosidade. Tantas coisas que ainda quero fazer. Tantas aventuras para viver. Quero aprender línguas, ler livros, sonhar acordada… Tenho a sorte de ter uma família muito unida. Tenho um marido incrível que não se importa de se enfiar num avião durante dez horas só para estar comigo. Há três noites, na estreia da minha peça, em Londres, eu disse-lhe que ele não precisava de ir, pois está em tourné pelos Estados Unidos [o marido é músico], mas ele foi, assistiu à estreia da peça e voltou. No dia seguinte deu um concerto. Para mim, isso é amor em acção. É extraordinário. Eu faria o mesmo por ele e esse é um exemplo do quão empenhados somos enquanto casal.

Como passa o seu tempo mais precioso?
Com a minha família. Nesta altura da minha vida, fazer coisas tais como ir para Londres dois meses fazer uma peça é uma decisão de família. Nunca tomo decisões sozinha. É tudo feito em grupo e até a mais nova, com 4 anos, tem direito a dar a sua opinião. Discutimos e se um dia as minhas filhas disserem que não querem ir, ficamos em Nashville. Por enquanto isso não acontece. Somos como ciganos, sempre de um lado para o outro. O meu marido fez isso a vida toda, por isso está habituado. E as nossas filhas já são pequenas aventureiras a explorar o mundo. Somos aquilo a que eu chamo de “pequeno circo itinerante”. Elas – e o tempo que passamos com elas – são o mais importante. Pode parecer um cliché, mas o tempo passa tão depressa que eu não quero perder um segundo.

O que faz quando tem um minuto livre no seu dia? E uma hora? E um dia?
Num minuto, sonho acordada. Adoro sentar-me calmamente a meditar. Se tiver uma hora livre, depende muito… Gosto de me sentar no chão a brincar com as minhas filhas. Li um artigo que dizia que isso era muito importante: colocarmo-nos ao nível deles e brincar durante uma hora. Adoro fazê-lo, pois traz de volta a criança que há em mim. Um dia livre? Adoro o pequeno-almoço, é a minha refeição preferida por isso um logo pequeno-almoço é perfeito para mim. Ler os jornais e ir nadar. Se eu estivesse em Sydney, ia à praia lá. Como sou incrivelmente pálida, fico toda vermelha, as pessoas gozam-me imenso. Era isso que eu fazia. Com o Keith e as miúdas, claro.

Com o tempo tão contado, gosta de usar relógio?
Uso sempre, para chegar a horas. Estamos a ensinar as nossas filhas a verem as horas e elas também têm os seus relógios pequeninos. Isso é importante porque elas já acham que chegar a horas é uma forma de respeito e de boas maneiras. Faz parte do nosso trabalho de pais ensinar-lhes isso. Eu fui educada assim, com respeito pelo tempo e com ética do trabalho. Comecei a trabalhar aos 14 anos e descobri cedo que chegar 15 minutos atrasada ao set de filmagens era um problema. Estava tão agradecida por ter trabalho que tornei-me adepta de chegar antes de tempo. O que também é mau e hoje eu faço por contrariar isso em mim. Imagina, vou jantar a casa de uma pessoa e chego 10 minutos antes da hora?! Não gosto que me façam isso, por isso dou valor ao rigor do tempo.

Como gosta dos seus relógios?
Gosto daqueles que podem ser usados como jóias. Mas também gosto dos desportivos, porque sou uma pessoa atlética. Gosto de usar relógios masculinos, também, com uma bracelete em cabedal e um grande mostrador – acho que fica cool, especialmente com uma t-shirt. Gosto daqueles relógios que nos fornecem montes de dados. Sou fascinada pela mecânica deles. Gosto de meditar e também uso o relógio para isso. Há tantas boas razões para usar um relógio, por isso não uso o iPhone para ver as horas. Mas não tenho uma preferência. Tenho um gosto amplo nessa matéria. Há anos que colecciono relógios e o meu marido também já se tornou num conhecedor.

Se pudesse acrescentar um feature a um relógio, qual seria?
Um que permitisse que ele falasse comigo.

E o que lhe diria ele?
Quanto tempo ainda tenho para chegar a tempo. Sou muito pontual e tenho pânico de chegar atrasada.

Há alguma época da sua vida que queira esquecer? E uma que queira recordar sempre?
Oh céus… Eu tento nunca dizer que “quero esquecer alguma coisa”, porque tento pensar o seguinte: “ok, com isto vem o contraste. Com a dor vem a alegria. Só por causa do contraste. Só se consegue conhecer um sentimento se já se viveu o exacto inverso dele. Por isso não se trata de esquecer, mas de passar por isso. Em relação ao tempo, em si, eu só gostava de ter mais. Adoro viver. Saber que um dia isso acabará é devastador. Quero estar cá para os meus filhos o máximo de tempo possível. Para que me peçam ajuda, tal como eu faço com a minha mãe.

Se pudesse voltar atrás no tempo e deixar uma mensagem à jovem Nicole, qual seria?
Diria sempre para ela escolher o amor. Para ser sempre feliz. A minha avó viveu até aos 90. As últimas palavras dela foram: “sê feliz, Nicky”. E é a coisa mais simples. Às vezes pode parecer complicado, mas quanto mais penso na vozinha dela a dizer aquilo, mais sentido faz. Porque, no final, mais nada importa. Se eu pudesse ter aprendido isso antes, acho que teria poupado a mim mesma muitas lágrimas.

Esta entrevista foi publicada originalmente na edição especial de relógios da Fora de Série de 16 de Outubro de 2015

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