Ando a brincar às bailarinas

Sou um zero à esquerda na maioria dos desportos. Sempre fui, até nos mais básicos. Em miúda, ninguém queria jogar raquetes comigo na praia. Nas aulas de aeróbica abria-se uma clareira à minha volta. A turma ia toda para um lado, eu ia para o outro. Nunca acertei com uma coreografia. E tentei tudo: hip-hop, body combat, step, ritmos latinos… até que desisti. A descoordenação é total e quero acreditar que é por eu ser canhota. Aulas de grupo com coreografia são de evitar. Contentei-me com as corridas. Um pé à frente do outro, mais depressa ou mais devagar, que ciência pode ter? Algum ginásio, com a ajuda de uma PT (saudades da minha Joaninha, que durante quatro anos não desistiu de mim, corrigiu-me a postura, puxou por mim como nunca ninguém tinha feito, ajudou-me a recuperar a boa forma e a auto-estima depois do parto) e sem grandes variações, para não descarrilar. Mas nunca perdi a vontade de descobrir novas modalidades. Adoro esquiar, no mar e na neve. Há uns anos, o surf foi o meu melhor aliado contra o stress. Pratiquei hipismo durante anos. Tentei ioga e pilates, mas morri de frio, de sono e de tédio. Recentemente, andei uns meses a coleccionar nódoas negras no kickboxing. Até samba e axé tentei aprender até admitir o óbvio: sou deficiente motora. Mais um bocado e participar nos para-olímpicos (passe o exagero, mas não anda muito longe disso…).

Há três semanas decidi experimentar uma actividade nova e acho que desta vez acertei. Andava a pensar em crossfit mas a barra de chão levou a melhor. Falei com a Inês Jacques, bailarina e coreógrafa que dá aulas no Ballerina Body, no Chiado, a pessoas que querem treinar como as bailarinas, mas sem dançar como as bailarinas. Ou seja, as aulas vão beber inspiração ao ballet clássico – a terminologia é a mesma, as posições são aquelas que estamos habituados a ver nas bailarinas de tutu: pernas en dehors, pliès, developes, relevé, retiré… mas passam-se no chão, sur place, sobre tapetes de ioga. No máximo, podemos estar de pé junto à barra, em détiré. Parece fácil, mas não é, especialmente porque envolve muita concentração – e força abdominal – para não desfazer a posição.

No iPod, tocam peças relaxantes de piano, a banda sonora perfeita depois de um dia alucinante – como quase todos os que tenho. A Inês fala pausadamente, explica cada exercício que vamos fazer. Tem um corpo franzino e torneado de bailarina e quando exemplifica os movimentos, desenha com o corpo posições de uma perfeição incrível. Impossível fazer igual, pelo menos uma canastrona destreinada como eu. Mas um dia chego lá.

Vai circulando pelo estúdio, à nossa volta – nunca somos mais que 8 alunas -, corrigindo-nos os erros de postura. Tem um sentido de humor requintado. Aponta-nos as barrigas salientes de Shakira, manda-nos encolher os rabos espetados de Beyoncé. Rapidamente, mesmo sem nunca ter feito ballet na vida, vou percebendo a que correspondem as posições. Gosto do ambiente descontraído e da sensação semi-dolorosa nos músculos e o relax que fica depois de cada aula (e nos dias seguintes). Há três semanas que ando a brincar às bailarinas e adoro. Acho que vou ser feliz aqui. E vai fazer milagres ao meu francês. 🙂

É bailarina e coreógrafa. Há três semanas que anda a transformar uma camionista desengonçada - eu - em algo mais harmonioso. Wish me luck!
A Inês Jacques é bailarina e coreógrafa. Há três semanas que anda a transformar uma camionista desengonçada – eu – em algo mais harmonioso. Wish her/me luck!

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