A moda dos ‘privés’

No universo da perfumaria, tal como na moda, há a linha de pronto-a-vestir, massificada, industrial. E depois há a colecção de alta-costura, a linha de topo, especial, feita com materiais raros. O que se segue é um mergulho no mundo dos ‘privés’, dos ‘exclusifs’, dos mais sofisticados ‘blends’ olfactivos. E todos com morada no El Corte Inglès.

Giorgio Armani é conhecido por muitas coisas, mas sobretudo, o traço de carácter que lhe é mais peculiar é o perfeccionismo com que encara o seu trabalho. Do croqui ao primeiro corte no tecido, das provas à venda final, não há etapa da criação em que o criador não se envolva profundamente. Não seria de esperar, portanto, que tenha decidido aplicar o espírito das suas colecções de alta-costura na criação de perfumes exclusivos. Foi em 2005. Mas a colecção de perfumes Armani / Privé precisou de 10 anos de amadurecimento para chegar (há menos de um mês) a Portugal. Está disponível em exclusivo no El Corte Inglès e cada uma das 14 fragrâncias que constituem as três linhas por que se divide esta colecção – “Les Eaux”; “La Collection”; e “Les Mille et Une Nuits” – é concebida a partir de ingredientes únicos, executados com a mesma dose de perfeição e excelência das criações do mestre da moda italiana. O resultado é um equilíbrio delicado entre o rigor das matérias-primas e a subtileza e envolvência dos aromas. Perfumes originais que estão intimamente ligados ao universo pessoal de Giorgio Armani.

“Começou por ser uma colecção particular que criei para os meus amigos e familiares”, revela Armani. Foram estes que o convenceram a partilhar esse seu dom e atenção inflexível ao detalhe com um público mais abrangente.

Os quatro aromas da linha “Les Eaux” são como a porta de entrada para este mundo privado olfactivo de Giorgio Armani. Cada uma destas quatro águas de toilette resulta de uma combinação fresca inspirada pela natureza e pelo Mediterrâneo. São como quatro jardins míticos, quatro sonhos perfumados de onde se destaca o bestseller “Pivoine Suzhou” (ver caixa). A ele juntam-se o “Figuier Eden” – que tem como ingrediente-chave o figo verde e cheira a uma noite serena no Verão italiano –, o “Rose Alexandrie” – cujo principal ingrediente é a rosa de Maio, com o seu aroma suave que paira pelos jardins de Alexandria –, e o “Vétiver D’Hiver” – que é uma combinação de texturas secas com sensações frescas, próprias do jardim da Babilónia.

Já os seis aromas da “La Collection” representam combinações mais intensas, inspirados na tradição e no Ocidente. Isto em oposição à linha “Les Mille et Une Nuits”, em que a tónica está, precisamente, no esplendor do Oriente. Um reflexo das viagens que o Sr. Armani faz por este misterioso continente.

Os seis Eau de Parfums da La Collection nascem de seis acordes míticos e cada frasco é selado por uma pedra preciosa que simboliza o seu ingrediente. Exemplos? “Ambre Eccentrico”, um dos lançamentos mais recentes e que promete vir a destronar a “Pivoine Suzhou” no top de vendas, junta, numa alquimia perfeita mas enigmática, plantas e resinas unidas pelo acorde do âmbar. A tampa castanha é inconfundível. “Bois D’Encens” evoca o calor do incenso branco, que Armani recorda dos tempos de infância, quando visitava igrejas com a avó, na Sicília. As memórias desse tempo são tão poderosas que o criador adoptou este aroma da tampa preta como seu perfume pessoal. Ainda dentro dos incensos, “Encens Satin”, feito com incenso dourado da Somália, tem um toque amadeirado e balsâmico, representado pela pedra de ágata. Igualmente reminiscente de dias passados em Itália é o “Eau de Jade”, que é, na sua essência, uma junção amarga de bergamota da Calábria que, com a sua pedra verde clara, representa as manhãs iluminadas do Mediterrâneo. Já “Cuir Amethyste” é um aroma carnal que tem a bétula prateada da Rússia como ingrediente principal. A pedra que o representa é a violeta. Por fim, “Pierre de Lune”, que é a pedra branca que ornamenta o frasco, tem uma elegante e refinada flor de cassis do Egipto no seu núcleo, o que lhe dá uma enorme potência. Que é algo que não falta a cada uma das quatro fragrâncias que fazem parte da linha “Les Mille Et Une Nuits”, que encerra os esplendores do Oriente em quatro Eau de Parfums intensos, distintos até na forma de aplicação: em nuvem para as “Eaux”; em V, na zona do decote, para a La Collection; num gesto mais privado, em toque pessoal, para a “Les Mille Et Une Nuits”.

A viagem ao oriente começa na “Rose D’Arabie”, extremamente perfumada, cativante e voluptuosa. Continua pelo “Cuir Noir”, que foi enriquecida com o calor sensual da especiaria mais cara do mundo: o açafrão. Avança para o “Myrrhe Imperiale” através da mirra da Somália, colhida à mão, desdobrando-se num perfume picante com acordes cítricos. E termina no profundo e imponente “Oud Royal”, com o seu aroma a essência de madeira de Laos, um ingrediente que demora uma década a ser extraído.

Pureza é a palavra que melhor define cada um destes aromas da colecção Armani / Privé. Se na perfumaria convencional as fórmulas chegam a acumular até 200 notas olfactivas, neste projecto de Giorcio Armani os perfumes têm entre 6 e 60 notas. Ou seja, aqui não há margem para erros. Só os melhores perfumistas estão à altura desta perfeição. E Armani soube escolhê-los a dedo para um resultado verdadeiramente intangível e sublime que nos chega em frascos inspirados nas linhas minimalistas das esculturas de Constantin Brancusi. Transparentes na “Les Eaux” (185 euros). Pretos com uma pedra de cada cor na “La Collection” (204 euros). Pretos com as tampas douradas na “Les Mille Et Une Nuits” (225 euros).

 

Armani Privé Pivoine Suzhou
Pivoine Suzhou, um poema tibetano
Basta sentir-lhe o aroma, leve e adocicado, para nos perdermos logo de amores por ele. É impossível resistir à delicadeza fresca da rosa peónia, o ingrediente principal desta eau de toilette e também a flor de eleição chinesa – representa a feminilidade, o yin, o princípio da vida, a felicidade, a graça e a prosperidade.

Foi em Suzhou, uma vila considerada património mundial pela Unesco, que Armani se apaixonou pelo Oriente. Com as suas pontes e canais de água cristalina, onde os pagodes pontuam a paisagem verde de jardins do século VI, Suzhou foi apelidada por Marco Polo, outro viajante italiano que por lá passou séculos antes, de “a Veneza do Leste”.

Aos acordes vibrantes da peónia, Armani juntou um bouquet de notas de tangerina, pimenta rosa e framboesas que tornam este Pivoine Suzhou num perfume ultra-feminino embelezado ainda, na cartonagem, por um poema caligrafado de Liu Yuxi, do século 9, da Dinastia Tang, dedicado à beleza eterna e à alma da peónia. Uma história de amor feita perfume. Não admira que seja a fragrância mais popular desta colecção.

Collection-Privée-Christian-Dior

A Collection Privée de Christian Dior
Christian Dior era outro apaixonado por jardins. Conta-se que quase todo o espólio de moda desta casa foi inspirado no magnífico jardim da casa de Granville do famoso costureiro que, em 1947, mudou radicalmente os códigos de estilo e beleza do século XX. Foi nesse ano que lançou a sua primeira colecção de alta-costura e a sua sede de perfeição era tal que, no dia do desfile, Dior perfumou as salas com aquela que foi a primeira fragrância que criou: “Miss Dior”. O que fez dele, desde o início, um couturier-perfumista. As suas fragrâncias eram como um toque extra de elegância, um toque final na toilette, aquele je ne sais quoi que fazia a diferença.

Na ânsia de fazer perdurar esse toque de mágica na maison que há décadas que já não conta com os traços de genialidade do Sr. Dior, o perfumista François Demachy mergulhou na criação de uma colecção de perfumes exclusivos em homenagem ao New Look (o estilo de silhueta feminina do final dos anos 40 cuja criação foi atribuída a Christian Dior por Carmel Snow, editora-chefe da “Harper’s Bazaar”).

“As flores são Dior, Dior é flores”. A definição é de Demachy, já que a utilização de notas florais é uma constante na história da perfumaria Dior – e esta colecção Privée não poderia ser excepção. Desde o “Oriental” ao “Colónia”, das femininas às masculinas, cada uma das doze fragrâncias – “Gris Montaigne”, “Oud Ispahan”, “Fève Délicieuse”, “Bois D’Argent”, “Grand Bal”, “Leather Oud”, “Ambre Nuite”, “Patchouli Imperial”, “Cologne Royale” e “Grandville” – apresenta ingredientes nobres e preciosos em perfumaria mas que também percorrem as tradições da casa francesa desde os tempos do Sr. Dior. Cada aroma, uma história que vale bem a pena ficar a conhecer.

A que cheira uma cor? E o vento que sopra junto ao mar?
“Gris Montaigne” celebra a sedução intemporal do cinzento, o ‘gris couture’, cor-assinatura presente nas colecções de alta-costura da marca desde 1947, nas paredes da casa de família em Grandville, na Normandia, e na fachada da loja principal da casa, na Avenue Montaigne, em Paris. Se o cinzento fosse uma cor, seria deste aroma chypre contemporâneo.

“Grandville” é uma homenagem à casa de infância de Christian Dior, Villa Les Rhumbs em Granville, na Normandia: “A minha vida, o meu estilo devem-se quase em absoluto a esta zona e à sua arquitectura”, disse Dior desta casa excepcional, construída sobre um penhasco com vista para o canal inglês de um lado e cercado por árvores do outro. Ao contemplar Granville, François Demachy começou a imaginar qual seria o aroma do ar que Christian Dior sentia todas as manhãs ao abrir a sua janela. “Queria criar uma fragrância que fosse não só aromática, visto que a propriedade é rodeada por pinheiros, mas que fosse também extremamente fresca de forma a evocar as rajadas de vento e as ondas que perpetuamente embatem nas rochas”, conta o perfumista que, para o efeito, juntou um toque de Concentrado de Limão a um Absoluto de Pinheiro com acentos resinosos e com notas revigorantes de Tomilho e Alecrim.

A “Collection Privée de Christian Dior” ainda não chegou a Portugal, mas tem data de estreia marcada para 13 de Janeiro, em exclusivo no El Corte Inglès. Os preços variam entre os 210 euros (125 ml) e os 420 euros (400 ml).

Tom Ford

A Private Blend de Tom Ford não pára de crescer

Em matéria de oferta olfactiva mais exclusiva, a Tom Ford foi a primeira marca a instalar-se pelos corredores perfumados do piso 0 do El Corte Inglès, em Lisboa. Ali, desde o final de 2013 que este balcão nos recebe como amigos de longa data e nos convida a mergulhar no mundo mágico do criador de moda texano que conquistou o mundo com o seu bom gosto inquestionável e o palminho de cara digno das passerelles.

O Private Blend, o laboratório pessoal de perfumes artesanais recheados de referências pessoais que Tom, o próprio, criou a pensar nos verdadeiros conhecedores, não tem parado de receber novos membros na família. “Neroli Portofino”, “Noir de Noir”, “Santal Blush”, “Ombre de Hyacinth”, “Oud Wood”, “Café Rose”, “Tuscan Leather”, “White Suede”, “Jasmin Rouge” são alguns dos aromas mais procurados neste espaço. O meu preferido? São vários, mas no topo estão “Neroli Portofino” e “Jasmim Rouge”.

Les Exclusifs de Chanel

Um ano de “Les Exclusifs” de Chanel
Foi precisamente há um ano que fui conhecer a chegada da colecção “Les Exclusifs” de Chanel ao El Corte Inglès. Na altura o lançamento foi feito com pompa. Afinal, não é todos os dias que um corner de um department store recebe “a nata da nata” de uma marca tão exclusiva como a Chanel: o Espace Parfum – único em Portugal e um dos apenas 40 existentes no mundo inteiro.

Ali, num corner renovado e inspirado nas cores, nas texturas e nos símbolos (preto e branco; bege; camélias; metalizados; dourados; texturas tweed; matelassé, tão Chanel na sua essência) do apartamento que Mlle. Chanel ocupou em Paris. Também ali encontramos as 14 fragrâncias unissexo, mantidas em frascos idênticos mas com personalidades distintas, cada um deles representando um determinado momento da vida de Gabrielle (Coco) Chanel – a casa onde vivia, o atelier onde trabalhava, os passeios pelo campo. Do “1932” a “La Pausa”, passando pelo “31 Rue Cambon”, pelo “Beige”, o “Bel Respiro”, o “Bois des Iles”, o “Coromandel”, o “Eau de Cologne”, o “Gardénia”, e a terminar no “Jersey”, no “Nº18”, no “Nº22”, no “Sycomore” e no “Cuir De Russie”, há, para os admiradores da Chanel, uma história escondida dentro de cada um destes frascos à sua espera.

Texto originalmente publicado na Fora de Série de 11 de Dezembro de 2015.

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *