Ode à coragem

Ana Salazar pode já ter uma idade respeitável e uma fama que a precede. Dessas que lhe permitiria sentar-se confortavelmente a colher os frutos do que plantou em mais de 40 anos de actividade. Mas não. Aquela a que chamam de “a mãe da moda portuguesa” não pretende parar. Mesmo depois de um período mais difícil continua determinada, a querer deixar a sua marca. Ana Salazar By Herself é a sua nova forma de expressão. É preciso coragem para, sem medos, reerguer uma carreira com mais de 70 anos de idade. Esta minha entrevista a Ana Salazar é uma ode a essa coragem. A de nunca desistir. Parar é morrer e Ana Salazar ainda tem uma longa vida pela frente. Que sirva de exemplo e de motivação para muitos.

A última vez que Ana Salazar deu uma entrevista à Fora de Série, vivia tempos desafiantes. Tinha acabado de vender a marca que fundou em 1982 com o objectivo de a fazer expandir e internacionalizar-se. Correu mal, o pior possível. A expansão não chegou a acontecer, as lojas existentes acabaram por fechar e a marca Ana Salazar ficou parada no tempo.

Nos anos seguintes, Ana Salazar (a própria, não a marca) assistiu impotente à derrocada da sua marca, sem poder fazer nada. Tem o seu nome, mas não é sua. Restava-lhe apenas o nome e a história que escreveu em mais de 40 anos de moda. Ana Salazar é, sempre foi, e continua apostada em ser um nome incontornável na moda portuguesa. Se lhe lembram que já passou dos 70 – e que já pode viver calmamente os anos que lhe restam sem a esquizofrenia de apresentar colecções a cada seis meses – recorda que não está sozinha nesse patamar: Armani, Valentino, Lagerfeld. Todos com mais de 80 anos, frescos, jovens, “para as curvas”. “Detesto a palavra reforma, para mim não faz sentido. Sempre disse que se parasse de fazer o que me apaixonou, a moda, era porque morria”, conta-nos.

Durante a “travessia do deserto” – o tempo que passou entre a venda da marca Ana Salazar e a criação de uma nova chancela, que apresentou há menos de um mês, a que chamou “Ana by Herself” –, Ana Salazar nunca conseguiu ficar parada. Foi assinando outros projectos já com esta nova marca, como o fardamento da recepção, restaurante e bar do Farol Design Hotel em Cascais (onde, aliás, Ana Salazar comissariou a decoração de um quarto), o vinho da Adega Cooperativa de Palmela e criado colecções de série limitada de malharia entre outros. Mas agora, ao apresentar uma  colecção de peças de pronto a vestir de edição única – num desfile subordinado ao tema “Back To The Future”, que aconteceu no recentemente inaugurado Brown’s Central Hotel, na Baixa lisboeta, um projecto de Pedro Luz –, Ana Salazar quer deixar definitivamente para trás o fantasma da crise e reinventar-se.

As linhas são imediatamente identificáveis. A colecção respira Ana Salazar por todos os poros. A começar pela cor quase omnipresente: o preto. “É mesmo a minha cor de eleição”, admite a estilista. “’Back to the Future’ foi baseada na reactualização de alguns detalhes de colecções anteriores, concretizando peças completamente novas. Mas quis inovar, o conceito foi totalmente reactualizado. Esta Ana Salazar é necessariamente diferente da antiga”.

Sem amargura, Ana Salazar diz que ainda tem muito para fazer pela moda em Portugal. “Quero continuar a trabalhar de uma forma sempre inovadora, só que as mentalidades neste país não evoluíram. Digamos que houve um regredir, as pessoas cada vez estão menos interessadas em gostar do novo em termos de moda. Os portugueses nunca compraram português. E agora com as duas novas tendências: luxo ou low cost, cada vez se torna mais difícil para os criadores portugueses imporem-se”.

Saudades confessa ter de viajar, uma componente que considera fundamental no desenvolvimento do seu trabalho. E porquê “Ana By Herself”, um nome que remete para solidão – ou emancipação? “É um reflexo da minha personalidade: determinação”. Sem arrependimentos nem rancores. “Há coisas de que, à primeira vista, me arrependo. Mas depois, se for a pensar na forma como elas aconteceram, creio que as voltaria a fazer de forma igual”. Ou seja: Ana Salazar está de volta. Vem sozinha e para ficar. Para já, tem as peças à venda em várias lojas multimarca. No futuro, quem sabe uma loja?

Entrevista publicada originalmente na edição de 11 de Dezembro de 2015 da Fora de Série.

Pips, Élio, eu e falta a Ana que se estava a vestir: best team ever! Nunca tinha vestido Ana Salazar e fiquei fã (deve ser porque é "By Herself"). E amei os sapatos.
Pips, Élio, eu e falta a Ana que se estava a vestir: best team ever! Nunca tinha vestido Ana Salazar e fiquei fã (deve ser porque é “By Herself”). E amei os sapatos.

Styling de Filipe Carriço assistido por Pedro Lança | Fotografia de Élio Nogueira | Maquilhagem de Lea Magui Louro | Cabelos de Edgar Pereira para Maria Lourenço | Agradecimentos ao Brown’s Central Hotel

Ana e Rita vestem Ana Salazar By Herself com colares em metal Valentim Quaresma e sapatos oxford em pele Eureka Shoes.

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