Um Mondrian nunca passa de moda

Foi em 1965 que Yves Saint Laurent desenhou aquela que ficou conhecida como a Mondrian Collection mas foi em 66 que ela andou em grande pelas capas das revistas. Lembram-se daqueles vestidos lindos, nas cores primárias, que nos remetem imediatamente para a pintura geométrica de Piet Mondrian? Pois é, eles eram só seis, numa colecção que homenageava outros artistas modernistas que influenciavam o trabalho de Yves, como Malevich ou Poliakoff, mas foram eles, os vestidos Mondrian, os “culpados” da imortalização de uma colecção. Cinquenta anos depois da sua criação, eis que temos um bom pretexto para reler um texto que escrevi em 2008, a propósito da morte desse grande génio que foi Yves Saint Laurent, o homem que só não inventou os jeans.

Ele criou o prêt-à-porter e abriu caminho às Zaras e H&Ms. Vestiu calças às mulheres na época em que não era suposto fazê-lo. Baptizou perfumes com nome de droga, posou nu, trouxe manequins de raça negra para as passerelles mudou a vida de Hillary Clinton. Yves Saint Laurent é o nome do provocador que substituiu na moda francesa a palavra “elegância” por “sedução”. Na vida deste génio criativo houve de tudo: fama, intriga, drogas, escândalos, dinheiro, doença e morte. O que será da moda sem o seu olhar atormentado atrás dos óculos de aros grossos? 

O mundo da moda sente a falta do olhar atormentado atrás dos óculos de aros grossos de Yves Saint Laurent?
O mundo da moda sente a falta do olhar atormentado atrás dos óculos de aros grossos de Yves Saint Laurent.

No mundo globalizado, notícias como a da morte do costureiro Yves Saint Laurent (YSL) já não caem como bombas. A novidade vai correndo pelas ruas, por SMS, pelos blogues, pelos fóruns da net. O “consta que…” acaba com o efeito surpresa e, assim, quando na madrugada do dia 1 de Junho as televisões anunciaram a triste nova, a reacção foi semelhante à que se tem com a notícia da morte de um personagem de ficção, quase um aceno de cabeça como que a dizer “pronto, sempre se confirma”.

“Era uma morte anunciada, ele já estava muito mal”, explica Ana Salazar, a mais antiga criadora de moda portuguesa, que roubou uns minutos às suas férias em Ibiza para recordar o estilista a quem chamaram de “rei da alta-costura”. “Tenho pena, mas nunca nos chegámos a cruzar… tive o prazer de conhecer pessoalmente outros, o John Galliano, o Jean-Paul Gaultier, mas Saint Laurent nunca calhou”, lamenta a designer.

Talvez por Ana Salazar se identificar mais com a escola da moda de Londres (liderada, na sua época áurea, por Vivienne Westwood), bastião do movimento punk, muito mais a cara das criações da criadora nacional do que a elegância e sofisticação parisiense de Saint Laurent. Ou talvez também por YSL ter sido sempre o típico génio atormentado, vidrado no trabalho, que alternava com períodos de depressão e reclusão, nada dado à vida social. O certo é que o encontro entre os dois nunca aconteceu. E assim se perdeu uma oportunidade para ficar a saber mais sobre o homem que um dia se colocou à disposição das mulheres com a seguinte frase: “as roupas mais bonitas para vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Para aquelas que não tiveram essa felicidade, eu estou aqui”.

Saint Laurent era um personagem global, que cruzou as vidas de muita gente. Especialmente mulheres. Grandes divas como as actrizes Catherine Deneuve, Lauren Bacall e Talitha Pol-Getty; a cantora de ópera Maria Callas; Paloma Picasso (filha do pintor, seu amigo, Pablo Picasso); a designer Loulou La Falaise; socialites como Marie-Hélène de Rothschild e Farah Diba (a viúva do Xá do Irão); as modelos Betty Catroux, Laetitia Casta e Nicole Dorier, constam da lista interminável de musas do costureiro que, aos 71 anos, foi vencido por um tumor cerebral.

Agora que a santíssima trindade da moda parisiense perdeu a sua última figura viva (as outras duas eram Coco Chanel e Christian Dior), vale a pena descobrir quem era o homem que revolucionou a forma de vestir das mulheres do século XX e que se arrependeu de não ter sido ele o inventor dos jeans.

De Oran a delfim de Dior
Era igual a si próprio, o adolescente que aos 16 anos aterrou, vindo da Argélia, ainda colónia francesa, em Paris, com o caderno de desenhos debaixo do braço. Franzino, tímido, escondido atrás de uns óculos de armação grossa, com um único objectivo: desenhar moda.

Um cocktail dress desenhado em 1954 por um Yves muito jovem, mas determinado.
Um cocktail dress desenhado em 1954 por um Yves muito jovem, mas determinado.

Já o fazia desde criança, em Oran, onde nasceu, em 1936, filho de uma família abastada. Sempre gostou mais de vestir e despir as bonecas das irmãs, Michelle e Brigitte, do que brincar na rua com os berlindes e piões dos outros rapazes. Com dez anos já desenhava colecções para a mãe, Lucienne, que as transformava em roupa numa costureira. Yves era um talento precoce. Tanto, que os pais, que sonhavam vê-lo formado em Direito, logo desistiram e mexeram todos os cordelinhos ao alcance para que o filho seguisse a sua vocação natural.

A mãe foi a grande responsável pela sua introdução ao universo da moda, trazendo-o para Paris e apresentando-o às pessoas certas. Como Michel de Brunhoff, o editor da “Vogue” francesa que convenceu Christian Dior a contratar o jovem YSL como assistente.

Assim foi. Aos 18 anos, Yves era já, isto dito por Dior, o seu “braço direito” e o “Delfim”. E, ao fim de três anos, com a morte repentina de Christian Dior, o jovem delfim subiu ao trono e foi coroado rei. Corria o ano de 1957 e Saint Laurent foi o eleito para salvar a casa parisiense da ruína financeira.

Fê-lo com distinção, logo na primeira colecção que apresentou como director criativo da Dior, no ano seguinte. Chamava-se “Trapézio” e fez correr muita tinta na época, por cortar com os cânones da moda mundial, ainda focada no “New Look” que Dior tinha lançado no pós-guerra, com as suas longas saias e as famosas “cinturas de vespa”.

A chegada da linha trapézio, justa nos ombros mas larga na cintura, em forma de A, foi um grande passo para a libertação feminina, quase comparável ao abandono do espartilho, quarenta anos antes. Mas este era só o primeiro degrau daquela que viria a ser uma fulgurante carreira.

Da tropa a Hillary Clinton
Corria-lhe a vida às mil maravilhas na Dior, somando sucessos como o da colecção que introduziu o estilo beatnik, com botas pelo joelho e blusões de cabedal, quando Yves Saint Laurent foi recrutado para a guerra da independência da Argélia e teve de largar o dedal e os alfinetes por uns tempos. Não durou nem um mês o calvário do frágil e promissor costureiro nas mãos dos militares. Os seus modos efeminados e a assumida homossexualidade não foram bem recebidos na caserna. Como nos tempos de escolha, YSL foi perseguido até ao esgotamento nervoso, vinte dias depois de ingressar no exército. Foi internado num hospital psiquiátrico e o tratamento chegou a incluir choques eléctricos.

Escusado será dizer que, no fervilhante universo da moda parisiense da época, a casa Dior não ficou à espera que o seu director criativo recuperasse das suas neuroses. Marc Bohan, outro jovem talento, substituiu-o e, quando já recuperado, mas dependente para sempre de tranquilizantes e viciado em álcool e drogas, YSL quis regressar, tal já não foi possível. O costureiro processou a marca por violação contratual e ganhou uma choruda indemnização de cerca de 100 mil euros, uma conveniente almofada financeira que o ajudou a fundar a sua própria casa.

Em 1962, nascia a Yves Saint Laurent, criada com os dinheiros do processo, o investimento do milionário americano J. Mack Robinson e com o imprescindível faro para o negócio de Pierre Bergé, o namorado de Yves (que, em 1993, foi acusado de insider trading e multado, aquando da venda da empresa ao gigante farmacêutico Sanofi por 420 milhões de euros, mas isso agora não interessa nada…).

Pierre Bergé é o eterno namorado de Yves Saint Laurent. Mesmo quando se separaram, nunca deixaram de ser sócios.
Pierre Bergé é o eterno namorado de Yves Saint Laurent. Mesmo quando se separaram, nunca deixaram de ser sócios.

Os anos 60 reflectiam já as mudanças na sociedade. A mulher estava mais livre, afirmava-se sexualmente e invadia a passos largos o mercado de trabalho. Precisava de roupa que potenciasse essa libertação. Muitos dizem que Coco Chanel libertou a mulher, mas que foi YSL quem lhe deu o poder. E assim foi. Começou por lhe dar o poder de vestir calças.

A peça não era novidade. Já actrizes como Greta Garbo e Katherine Hepburn a tinham usado no cinema. Mas YSL trouxe-as para a rua, tornou-as moda. E assim nascia, em 1966, o famoso “Le Smoking”, o smoking feminino, a peça mais icónica de YSL, a sua definitiva impressão digital na moda do século XX.

O eterno smoking feminino de YSL pôs as mulheres a usar calças. Um escândalo que muito agradeço.
O eterno smoking feminino de YSL pôs as mulheres a usar calças. Um escândalo que muito agradeço.

Yves costumava dizer que se uma peça era recebida com vaias e apupos, isso era bom sinal. Foi o que aconteceu com os smokings e os fatos com calças que passaram a pontuar todas as suas colecções. Por todo o lado multiplicavam-se os relatos de mulheres que viram vedada a sua entrada em hotéis e restaurantes em Londres e Nova Iorque por vestirem calças. Há a famosa história da provocadora socialite Nan Kempner, que ao ver a entrada barrada num restaurante fina da Madison Avenue, em Nova Iorque, por causa das calças, decidiu simplesmente tirá-las e entrar só de casaco. A prova de que YSL foi um revolucionário, um criador de estilos que dedicou parte da vida a derrubar barreiras e convenções.

E foi assim que ele permitiu à mulher aceder a um universo que até então lhe era interdito. O próprio o admitiu no discurso de despedida que fez quando se retirou, em 2002: “Acompanhei-as nesse grande movimento de libertação do século passado”. Sem ele – e as suas calças – Giorgio Armani não tinha o império que hoje tem e Hillary Clinton não teria um uniforme que tão bem preenche as suas ambições de poder.

Smoking 2.0

Ainda hoje o Le Smoking continua a ser a peça chave da casa Saint Laurent Paris. Hedi Slimane fez questão de o reinventar.
Ainda hoje o Le Smoking continua a ser a peça chave da casa Saint Laurent Paris. Hedi Slimane fez questão de o reinventar.

Da arte do escândalo ao escândalo da arte
De calças e casaco, sim, mas plena de sensualidade. Era assim a mulher YSL. Daí que, não satisfeito, Yves as tenha feito acompanhar por blusas transparentes, o verdadeiro escândalo. Mas nada comparado com o tumulto gerado em torno das fotografias que tirou nu – mas de óculos –, em 1971, para a campanha de “Kouros”, o seu primeiro perfume ‘pour homme’. Ou o alvoroço de ter lançado um perfume chamado “Opium”, alegadamente fazendo a apologia do uso das drogas. Ou o choque de ver, nos seus desfiles, manequins de raça negra (é a ele que Naomi Campbell deve a sua primeira capa da “Vogue”).

Nos anos 70, YSL habituou-se a ser o rei dos escândalos. às mulheres de calças seguiram-se as transparências. E a seguir, uma fotografia do próprio nu, para a campanha do perfume Kouros.
Nos anos 70, YSL habituou-se a ser o rei dos escândalos. às mulheres de calças seguiram-se as transparências. E a seguir, uma fotografia do próprio nu, para a campanha do perfume Kouros.

Claro que os escândalos lhe trouxeram notoriedade, mas não foram eles que fizeram de YSL um ícone cultural. Yves era mais do que um simples costureiro. Pierre Bergé costumava dizer que ele era “um homem de uma inteligência excepcional, embrenhado num negócio de imbecis”. Afirmações não muito edificantes para o mundo da moda, mas que atestavam a superioridade intelectual do criador argelino.

Ainda os vestidos Mondrian...
Ainda os vestidos Mondrian…

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Apaixonado pela arte em geral, Saint Laurent teve na maior parte dos artistas seus contemporâneos – como Piet Mondrian, Andy Warhol, Tom Wesselmann, Picasso, Van Gogh, Bonnard, Cocteau, Braque ou Christian Bénard –, ou uma fonte de inspiração, ou amizades, ou ambos. Não só tinha as casas (o duplex de Paris, a penthouse de Nova Iorque, o castelo na Normandia e a casa de Marraquexe) forradas a móveis art-deco e obras de arte, como as recriou, ao longo das suas mais de 70 colecções. Foi o caso do célebre vestido “Mondrian”, inspirado nas linhas cubistas do artista plástico holandês, entre muitos outros.

Catherine Deneuve foi uma das musas de YSL. Há quem compare a ligação da actriz de "Belle de Jour" e do criador com a que uniu Givenchy a Audrey Hepburn.
Catherine Deneuve foi uma das musas de YSL. Há quem compare a ligação da actriz de “Belle de Jour” e do criador com a que uniu Givenchy a Audrey Hepburn.

Também o cinema foi uma forma de expressão para o grande estilista. Não foi à toa que Truffaut disse que ele foi “o maior cinéfilo entre os costureiros”. YSL vestiu Catherine Deneuve no filme “Belle de Jour”, de Luis Buñuel (1967), e em “Mississipi Mermaid”, de François Truffaut (1969). Razões suficientes para fazer da loira actriz francesa a sua musa inspiradora e ali nasceu uma amizade que durou até ao fim dos seus dias. Aliás, a ligação YSL-Deneuve era considerada a versão intelectual da de Givenchy e Audrey Hepburn.

Yves, vestiu ainda Cláudia Cardinale e Capucine no filme “A Pantera Cor-de-Rosa”, de Blake Edwards (1964), entre outros filmes, para além da paixão pelo teatro e pelo ballet (era amigo pessoal do bailarino Rudolf Nureyev), para os quais criou inúmeros figurinos.

Da Zara ao fim
YSL democratizou a moda. Pode dizer-se que ele abriu caminho ao nascimento dos grandes gigantes Zara e H&M, ao abrir, em 1966, a primeira loja de pronto-a-vestir. Chamava-se Rive Gauche e era a primeira marca de prêt-à-porter com o nome de um grande costureiro. “Antes dele, só havia pequenos salões de alta-costura, frequentados pelos mais abastados. O YSL trouxe a moda até ao povo”, disse Alexandre Shulman, editora da “Vogue” britânica.

Yves detestava o elitismo que reinava na moda. E nisso foi revolucionário.

Mas o espírito subversivo de Yves foi amansando com os anos. A criatividade já não era a mesma e os altos e baixos da sua saúde mental não ajudaram a casa no momento em que a alta-costura entrou em crise. Em 1999, o grupo PPR – Pinault Printemps Redoute –, detentor do grupo Gucci, entrou em cena. A YSL, comprada por mais de 580 milhões de euros, dividiu-se, ficando a perfumaria e a Rive Gauche com a Gucci – tendo sido nomeado director criativo a estrela Tom Ford, por quem YSL nunca morreu de amores. “O pobrezinho faz o que pode…”, comentava. A YSL Couture, a divisão de alta-costura, ficou nas mãos da Artémis, a holding pessoal de François Pinault, com YSL à frente, até 2002, data em que o costureiro se retirou. Ford também não se aguentou muito tempo por ali. Na época criava para duas casas, a YSL e a Gucci, e diz-se que não aguentou as críticas dos fiéis seguidores do mestre Saint Laurent, que diziam ser a sua antítese. Saiu em 2003 e deixou Stefano Pilati, o assistente, no seu lugar. Até hoje.

No ano em que se reformou das passerelles, Saint Laurent fazia 40 anos de carreira. Não saiu de fininho, mas sim pela porta grande, com um badalado desfile retrospectivo, no centro Georges Pompidou, em Paris, onde 300 manequins mostraram todo o seu trabalho num desfile que está disponível no YouTube (aqui, aqui e aqui). As peças mais míticas da história da casa estão preservadas na Fundação Bergé-Yves Saint Laurent, a funcionar na antiga sede da casa, no número 5 da Avenue Marceau, onde se esconde um espólio com 15 mil objectos e 5 mil peças de roupa.

A casa que tinha em Marraquexe foi sempre um refúgio para Yves. Foi lá que foram depositadas as suas cinzas. E é também ali que Bergé pretende juntar as suas.
A casa que tinha em Marraquexe foi sempre um refúgio para Yves. Foi lá que foram depositadas as suas cinzas. E é também ali que Bergé pretende juntar as suas.

Desde que saiu da ribalta, por já não se identificar com o mundo da moda, Saint Laurent fechou-se na casa de Marraquexe, a sua favorita, e dedicou-se à escrita. Como companhia tinha a amizade de Bergé (de quem se separou nos anos 70, mas que nunca o abandonou nos negócios), as infindáveis depressões e os seus muitos buldogues franceses, todos eles chamados “Moujik”. Foi nos jardins desta casa que foram espalhadas as suas cinzas, às quais Bergé já prometeu juntar as suas. Nas cerimónias fúnebres, esteve, sempre na primeira fila, tal como nos desfiles, a sua maior fã: a mãe. Com 95 anos, Lucienne Saint Laurent, continua a não vestir mais nada que não a roupa feita pelo filho. Que melhor homenagem poderia Yves ter?

Texto publicado originalmente da Fora de Série de Julho de 2008

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