A colar os cacos

Não espera razões, tudo é despeito / tudo soberba e força; faz, desfaz / sem respeito nenhum; e quando em paz / cuidais que sois, então tudo é desfeito.

in “Que Farei Quando Tudo Arde?”, Sá de Miranda

As palavras de Sá de Miranda teimam em fazer sentido num dia que devia ser de festa e não é. Amanhã faz um ano que nasceu o Kiss-and-Tell, o blog que criei para assinalar a minha entrada nos 40 e para contar histórias, escrever, que é a forma como me exprimo melhor. Um ano é um marco e merecia uma celebração, nem que fosse para agradecer a presença dos leitores – e o seu constante apoio e incentivo para continuar. Acreditem que estou agradecida. Mas os tempos não são de festa. Hoje mesmo, em véspera do meu aniversário – e do do blog – o jornal onde trabalho há 16 anos imprimiu a sua última edição. Capitulou depois de anos de desvarios financeiros, erros de gestão, arrogância e falta de visão empresarial e outros problemas que tais. O Diário Económico deu o último suspiro e levou com ele o meu projecto mais querido, a revista Fora de Série, que ajudei a fundar e editei ao longo de mais de 13 anos. Foi como uma filha, era parte de mim. Como celebrar quando sinto que à minha volta tudo arde?

Foram mais de seis meses de agonia. 30 longas semanas de incerteza que me roubaram – a mim e às mais de 130 pessoas, amigos que trabalharam durante tantos anos ao meu lado – horas dias semanas meses de sono, me destruíram a saúde mental (a pouca que existia) e puseram a conta bancária de pantanas com salários, impostos e contribuições sociais em atraso. A única esperança era uma venda que se arrastou por meses e nunca aconteceu. Houve plenários de redacção, greves, um alvoroço de sindicatos e advogados, discussões, muito desnorte e o advento de uma nova variante de solidariedade, a virtual. Chegou a falar-se em PER e agora chegámos à inevitável insolvência. É o fim e este não foi ditado pela morte lenta dos jornais em papel, ditada pela invasão irreversível do digital. O Diário Económico soube adaptar-se aos novos tempos e, durante estes meses de angústia, não só consolidou a liderança no seu segmento como mais do que duplicou as visitas online. Foi vítima da irresponsabilidade do seu próprio accionista. Do mais elementar desrespeito que este demonstrou pelas pessoas que empregava. Da gestão danosa que destruiu em 5 anos o que outros levaram 25 a construir. De uma certa impunidade que reinou neste país durante décadas. O fim significa que mais de cem pessoas vão perder o emprego: há vidas em sobressalto e sonhos destruídos.

A Fora de Série é um desses sonhos arruinados. Por ela, e com a ajuda inestimável de uma equipa de heróis talentosos e dedicados (Inês, Bruno, Cristina, Catarina, Filipe, Paulo… e tantos que por ali passaram e ajudaram a escrever a história daquela revista – vocês sabem quem são) dei o melhor de mim. Bati-me pela sua sobrevivência até perder as forças. Perdemos essa batalha, infelizmente, o cansaço é muito e as feridas ainda ardem. Mas tenho a certeza de que a guerra não está perdida. É tempo de levantar, sacudir o pó, colar os cacos e seguir em frente para desenhar novos sonhos. Os que vivemos – 13 anos deles – já ninguém nos tira.

Fiz parte da equipa fundadora da Fora de Série em 2003. Desde então foi como uma filha, alimentada com carinho e dedicação. Vai deixar saudades. (c) Paulo Alexandre Coelho
Fiz parte da equipa fundadora da Fora de Série em 2003. Desde então foi como uma filha, alimentada com carinho e dedicação. Vai deixar saudades. (c) Paulo Alexandre Coelho

 

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2 comentários

  1. Gostei muito do teu artigo.
    O que se passou contigo não é nada que não tenha acontecido a muita gente.
    O que é preciso é seguir em frente, aprender com os erros cometidos, lembrar as coisas boas,e nunca desistir.
    Há sempre uma quantidade grande de hipóteses para aproveitar e desenvolver.
    Beijos
    Pai

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